Visages-Villages_Critica_Oscar

A Fulgência do Desconhecido em “Visages, Villages”

Quando será que foi mesmo que os humanos perderam suas características mais calorosas, mais gregárias, mais inegociáveis? Onde será mesmo que eles se embruteceram, se isolaram, se entristeceram? Por que será mesmo que não foi tentada a recuperação em regra do que sempre nos fez bem, nos preencheu, nos aperfeiçoou? Como será mesmo que os humanos permitiram que o estar entre os seus semelhantes de forma afetiva e complementar fosse ser substituído por ilusórias máquinas e artefatos que não lhes restituíram qualidades inatas e inerentes e, sim, os destituiu de sua alma divina e resplandecente?

Visages, Villages é um brilhante documentário de 2016, escrito, dirigido e apresentado por Agnès Varda e JR; ela é aquela venerada e veneranda diretora do cinema francês de quase noventa anos de idade, viúva de outro ícone incontestável daquela cinematografia profícua e sólida, a saber, Jacques Demy, prestes a ser agraciada com um Oscar Especial por sua carreira de obras simplesmente notáveis, após ter sido igualmente homenageada em Cannes com a Palma de Ouro “de idênticos quilates” em maio deste ano; ele é Jean René, o JR, um afamado fotógrafo de trinta e cinco anos de idade, notório por seus enormes painéis de papel em preto e branco de pessoas comuns, transformadas em extraordinárias “testemunhas”, que têm as ruas de Paris, com seus muros e escadarias já fotogênicos em si, como a sua galeria a céu aberto, “visível e apreciável” diuturna e indistintamente.

A encantada premissa deste roteiro a quatro mãos foi a de buscar, em distantes e negligenciadas regiões da França profunda, por habitantes anônimos e despretensiosos e que, nunca, imaginariam que pudessem ser o “argumento vivo” de um filme, muito menos serem dirigidos por dois profissionais que são únicos em seu talento, experiência e especificidade. JR é possuidor de um simpático e indefectível furgão que, além de transportá-los pelas bucólicas e  tranquilas paisagens interioranas, funciona como um eficaz estúdio de revelação fotográfica; ele maneja, juntamente com uma pequena equipe, todo o aparato tecnológico imprescindível à produção das fotos gigantescas, muitas das vezes, “coadjuvadas concomitantemente por diversos modelos casuais de uma mesma localidade”; estes adoram a sensação de poder ceder os seus semblantes e, às vezes, até suas figuras inteiras a um evento de evidentes boas intenções e de compartilháveis resultados artísticos; com o personalíssimo crivo criativo de Agnès, que dialoga fluidicamente tanto com aqueles que eles escolhem aleatoriamente como com o seu irrequieto e irreverente companheiro de projeto e de viagem, há a ampliação in loco das imensas fotos que se transformam em “quadros” vívidos a cobrir construções, ruínas ou superfícies que se lhes vêm pelo caminho no seu mover curioso pelas cidades diminutas e hospitaleiras.

Como se houvesse uma mágica sendo “conjurada” por estes relacionamentos instantâneos entre estes mentores e os seus convivas por toda a extensão desta obra de acerto temático e beleza pictórica impressionantes, os “em estado de graça” espectadores irão ser conduzidos prazerosamente, em primeiro lugar, pelo alto entrosamento  entre Agnès e JR, que não poderiam ser mais díspares em suas complexidades de vida reveladas ou omitidas; e, em segundo lugar, pela sensação de contentamento que tal iniciativa inusitada irradia entre estes “desconhecidos íntimos”, que terão, provavelmente, entre as suas memórias mais caras o dia em que foram retratados por artistas extremamente hábeis em captar-lhes expressões típicas jamais auto constatadas e abertamente divulgadas.

Visages, Villages, para os que lograrem “viajar por seus sentidos mais sutis e mais recônditos”, será uma ímpar jornada existencial através do que é essencial, aos olhos fragilizados de Agnès e os olhos vivazes de JR, da finita, distraída, e esplêndida natureza humana.



Professor de Inglês há mais de 35 anos e, em meus fins de semana, há mais de 15 anos, venho escrevendo resenhas cinematográficas sobre um filme em cartaz na cidade de São Paulo. Como venho de família de cinéfilos inveterados, filmes de todas as tendências, procedências e dimensões fazem parte de meu cotidiano desde criança; entretanto, como não pertenço à área dos que produzem efetivamente obras para a "telona"ou que as analisam periodicamente para os meios de comunicação, sentia a vontade de conviver mais de perto com os amantes da Sétima Arte.


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