“The End of the F***ing World”: A Acidez do Desajuste Excludente

Por muito tempo produtos tidos como “teens” tiveram uma conotação pejorativa classificando-os como de baixa qualidade ou de conteúdo raso, quando não, vazio. Tomemos como exemplo as série da Netflix – 13 Reasons Why que fez um sucesso estrondoso de público, entretanto recebeu diversas críticas, não por ser vazia mas por tratar do assunto suicídio de forma irresponsável e por vezes leviana. Na contramão dessa tendência, séries como Stranger Things também se enquadram em séries “teens” (haja vista parte do público) mas não de forma negativa, ainda que a segunda tenha seus problemas. O ponto é que série “teen” não mais tem relação com qualidade ou temática, e sim com a público alvo da mesma, que exige cada vez mais qualidade nas obras que assistem. E é pensando nesse público exigente que surge a série The End of the F***ing World, série original da Netflix. Baseada na HQ homônima escrita por Charles S. Forsman, The End of the F***ing World antes de virar série já havia sido adaptada para as telas, mas no formato de curta-metragem (ambas muito bem avaliadas) o que deu uma certa segurança para a Netflix investir no material.

Na série acompanhamos James (Alex Lawther) e Alyssa (Jessica Barden), dois jovens desajustados que não se enquadram nos padrões que regem a escola onde estudam, o bairro onde vivem, e até mesmo a família de onde nasceram. Esse deslocamento social que os excluiu, acaba por atrair um ao outro, criando laços que vão muito além do clichê pertencente às frívolas comédias que outrora eram pejorativamente sinônimos de séries “teens“.

Toda construção desse laço emocional entre ambos é obtida por uma montagem ágil que mescla as histórias dos protagonistas, contextualizando cada ação tomada. O excelente uso de flashbacks dão profundidade à dupla sem nunca soar um recurso preguiçoso ou mesmo repetitivo. A agilidade nessa contextualização permite que a série tenha apenas 8 episódios de 20 minutos cada. Ou seja, em menos de 3 horas você terá “maratonado” a série sem ter nenhum episódio sobrando – um mérito e tanto haja vista os recentes problemas com parte das série originais da Netflix – o excesso de episódio. Nada sobra em The End of the F***ing World. Os diálogos ácidos e sarcásticos entre James e Alyssa são deliciosamente encantadores e nunca são dispensáveis. O recurso do voice-over, que são aquelas vozes na cabeça do personagem, é usado com muito inteligência, pois o roteiro brinca com o que eles pensam e como eles agem. Por exemplo, por mais que James pense ser um psicopata (sabemos disso pelo voice-over) suas ações demonstram que não é bem assim. O mesmo acontece com Alyssa que pensa em agir de uma maneira mas sua ações refletem sua real intenção. Isso gera surpresas constantes pois mesmo os personagens dizendo o que ele querem fazer, não significa que eles realmente farão.

Mas além dessa agilidade na montagem, The End of the F***ing World tem o mérito de um roteiro que privilegia os pequenos momentos de brilhantismo do diretor Jonathan Entwistle e da diretora Lucy Tcherniak. Há alguns momentos em que a série exibe um cinematografia com pouca luz criando uma soturnidade que gera angustia no espectador que rapidamente, mas nem perder o peso, é aliviada. Tanto Justin Brown como Ben Fordesman, diretores de fotografia iluminam a cena permitindo que o espectador sinta a conexão de James e Alyssa ou mesmo o isolamento social de ambos. Sem esse trabalho perfeitamente harmônico entre roteiro e montagem ágeis e direção precisa, com certeza a série se atropelaria em sua própria história.

A trilha sonora também é um show à parte. Não há sutilezas na utilização da trilha, pois ele surge durante todos os episódios da série tanto de forma extra-diegética quanto de forma diegética, compondo a cena e as ações da dupla. Estão presentes músicas de grandes artistas como Fleetwood Mac, Mazzy Star, Shuggie Otis, Françoise Hardy, The Belles e Brenda Lee. São músicas que além de serem ótimas para se ouvir aleatoriamente, servem também à narrativa, tanto como contraponto ao que é visto em tela quanto para corroborar com as ações e/ou sentimentos do casal. Além disso, a trilha sonora original cria uma ambientação carregada de tensão no momentos exatos, o que dá ao espectador um clima de faroeste que é facilmente identificado por alguns elementos presentes na série como constantes duelos e cenários com grandes vazios.

É preciso ressaltar também que a série é uma grande confluência de referências cinematográficas. Temos ali o já citado faroeste, mas há algumas referências mais explícitas como os clássicos Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas, de 1967 e Assassinos por Natureza, de 1994. São referências que em momento algum incita a comparação entre as obras, embora seja sempre interessante que grandes clássicos sejam referenciados para que um público mais novo possa (verdade deva) procurar conhecer esses filmes que foram tão importantes para o cinema em suas respectivas épocas.

The End of the F***ing World é uma gratíssima surpresa da Netflix. Com um formato ágil e moderno, a série investe em piadas ácidas e sarcásticas que faz o espectador rir de nervosismo com o desenrolar da história. Uma trama simples, porém bem contada, que extrai apenas o necessário para que embarquemos na aventura daqueles personagens falhos e dúbios, mas acima de tudo carismáticos.

Que venha logo a já confirmada segunda temporada!



Apaixonado por música tanto quanto por cinema, comecei a minha cinefilia com minha mãe indo ao cinema para ver os filmes dos Trapalhões e do Jean-Claude Van Damme. A paixão veio forte quando assisti a Jurassic Park, com toda aquela esplendor visual mesclado com a trilha de Johh Williams. Hoje com a ajuda do Spotify detenho uma playlist com todas as trilhas sonoras que me marcaram e me fazem amar o cinema cada dia mais. Minha trilha preferida? Do filme Uma Lição de Amor de 2011.


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