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O Sectarismo Racial em “Strong Island” | Netflix

Considerados como a grande febre do momento, as séries ou documentários de investigação que exploram as histórias reais de crimes, investigações e julgamentos, sempre nos intrigam. Não à toa que são grandes sucessos de audiência fazendo-nos viajar nestes dramas e também constatar que as injustiças do sistema penal não ficam restritas apenas ao solo brasileiro. A Netflix tem acertado muito na produção ou obtenção de alguns títulos e, neste contexto, ganham destaque séries como  Making a  Murderer (2015), Amanda Knox (2016), The Keepers (2017), Confession Tapes (2017) entre outros.

Desta vez, podemos conferir mais um destes dramas reais, no premiadíssimo documentário Strong Island (2018), que também é um dos indicados ao Oscar 2018 de melhor documentário. Através da direção experimental e afiada de Yance Ford, acompanhamos a sua busca por respostas sobre o homicídio de seu irmão, William Ford Jr.

De origem afrodescendente, a família dos Ford constituiu residência em Long Island, local predominantemente composto por brancos e com algumas “ilhas” de bairros povoados por minoria negra. Esses bairros eram bem delimitados, sendo a população negra muito oprimida pela intolerância racial na época. De maneira muito eloquente, emocionante e com riqueza de detalhes, Bárbara, a mãe de Yance faz uma narrativa linear da origem e constituição da família, sua formação, e educação dos filhos. Através dos olhos de Bárbara, dos irmãos e amigos, conhecemos um pouco sobre a personalidade de William Jr., numa forma de compreensão dos fatos que culminaram em seu homicídio e os desdobramentos deste episódio.

O documentário foge um pouco daquele padrão do gênero. Não contém trilha sonora melodramática e nem excesso de imagens. Ele opta por um tom mais cru e desconfortável através dos depoimentos.  Com um enquadramento fechado em seu rosto, Yance fala autenticamente sobre a sua vida e a do irmão, como se estivesse em frente ao espelho encarando os seus próprios monstros. Logo de início, ele desafia o espectador quando diz que ele próprio quer contar a história do irmão, não estivéssemos dispostos a fazer perguntas ou entender, que não continuássemos assistindo.

Entretanto, Strong Island falha como narrativa investigativa ao não apresentar elementos que o sustentem para isso. O filme não exibe outras perspectivas além das do núcleo familiar, oferecendo-nos apenas a visão de dentro para fora. Neste sentido, funciona mais para a família compreender o que aconteceu, do que uma investigação em si. Torna-se objeto de promoção ao autoconhecimento e expurgação de culpas e medos da mãe e do próprio Yance.

Contudo, encontramos aqui um paradoxo: a sua própria fraqueza é o que o torna significativo. O filme impacta pela forma com que foi realizado ao expor de maneira incisiva o ponto de vista dos oprimidos. O maior peso de Strong Island está justamente em tornar esta narrativa conhecida pela versão de Yance, sua família e amigos íntimos. Aqui, esta história soma-se às tantas outras de injustiças contra os negros, onde a vítima quase sempre é julgada como motivadora de sua própria morte. O documentário expõe de maneira contundente a institucionalização do racismo no sistema judicial americano, uma vez que as incoerências apontadas são tão evidentes que não nos dá chance de pensar em outro motivo, a não ser o do segregacionismo racial.

 



Bióloga de formação, amante da natureza e da sétima arte por opção. Antes mesmo de saber o significado da cinefilia, já existia dentro de mim, aquele gosto e encantamento pelos filmes. Fui descobrindo depois, que isso era paixão por cinema. É através dele que permito dar umas escapulidas da minha vida e viajar com pessoas e aos lugares mais excepcionais e variados possíveis.


'O Sectarismo Racial em “Strong Island” | Netflix' has 1 comment

  1. 5 de Fevereiro de 2018 @ 13:42 Fernando Machado

    É triste demais vermos que pessoas morrem, vitimas do preconceito que está tão arraigado em nossa sociedade que é visto como algo normal por muitas pessoas, inclusive por importantes instituições. Ótimo artigo!

    Reply


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