RAW (2016) | Crítica

Por que assistimos a filmes? O que nos leva a sair de casa, pegar filas, pagar ingressos (geralmente bem caros), nos juntar a outras dezenas de pessoas para ficarmos 2 horas vendo pessoas atuarem? O que nos leva a comprar DVD ou blu-ray de um filme que talvez vejamos apenas uma vez? O que nos leva a pagar uma assinatura mensal, ou mesmo arriscar a segurança de nossos computares utilizando torrents para assistirmos a filmes?

A verdade é que existem diversas respostas para essas perguntas. Podemos assistir a filmes para nos divertir, para passar o tempo, para chorarmos, para refletirmos, para termos medos e sustos. Enfim, há uma série de emoções que sentimos ao ver um filme, mas há uma coisa em comum que todos esses motivos exigem – conexão com o público.

Independente da história, a emoção só é extraída mediante conexão do público com os personagens da história. E quando o filme consegue criar essa conexão, qualquer história por mais absurda que seja, poderá se tornar interessante durante todas as suas 2 horas em média.

Veja o caso de RAW (2016) que desde já, aponto como um dos melhores filmes que vi nesse ano de 2017. No filme acompanhamos os primeiros dias de Justine, uma tímida jovem numa faculdade de veterinária. Por ser vegetariana, e filha de pais devotados ao vegetarianismo, Justine enfrenta de cara algumas dificuldades como por exemplo um trote estudantil que a obriga a comer carne animal. A partir desse trote um desejo incontrolável de comer carne começa a se desenvolver nela.

O filme consegue desde o inicio criar uma relação entre Justine e o público que vê naquela garota a normalidade de uma novata tentando se encontrar num ambiente agressivo com o de uma universidade. Vemos como sua relação com sua irmã mais velha e já veterana na universidade, é marcada por uma admiração e uma certa inveja. Acompanhamos a dificuldade dela em fazer amigos devido seu perfil introspectivo e isso faz com que nos importemos com o que virá acontecer com a personagem.

Se você chegou até aqui no texto, sem saber absolutamente nada sobre esse filme (o que é pouco provável) sugiro que você vá ver esse filme sem conhecimento algum a respeito da trama. Não revelarei nenhum spoiler aqui, mas o que se seguirá no texto poderá fazer você querer ver ao filme ou fugir dele. Vai depender do quão forte é o seu estômago.

Esse desejo por carne cresce nela a ponto dela desejar e consumir carne humana, e é ai que a conexão com a personagem se faz necessária. Sem ela, jamais nos interessaríamos por uma garota que come carne humana. Toda a construção da personagem é feita de modo a não apenas chocar o público com cenas de antropofagia. Há uma mensagem simbólica por trás de ato e isso percebido na sua relação com a irmã mais velha que começa de forma distante mas aos poucos essa relação, ou essa conexão entre ambas  é construída em cima desse canibalismo.

E essa conexão entre nós e Justine e entre Justine e sua irmã, é fruto do impecável trabalho de direção da francesa Julia Ducournau que estreia na direção de uma longa-metragem e também é responsável pelo roteiro do filme. Ela consegue criar momentos bem naturalistas onde personagens agem como pessoas normais em rotinas normais, para que nos momentos chocantes não haja distanciamento do público diante o que esta sendo mostrado na tela.

Há um incomodo ao vermos os alunos sujos de vermelhos como se fosse um ritual macabro

A tensão criada por meio de longos e cadenciados takes , com uma trilha sonora que cresce paulatinamente proporciona um ambiente de extremo incomodo que me fizeram estalar os dedos compulsivamente e me retorcer todo no sofá. Um filme com um fraco desenvolvimento das cenas e sem conexão como público causaria repulsa em boa parte do público (exceto aquele público que se diverte com cenas grotescas e gratuitas, tipo o filme CANIBAIS, 2013). Não espera esse tipo de filme aqui. O objetivo RAW não é chocar o público e sim provocar seus sentidos o máximo que puder, como por exemplo no começo do filme onde os calouros recebem um trote que sujam seus jalecos outrora brancos, com tinta vermelha. Ainda que saibamos que se trata de tinta vermelha e não branca, é angustiante ver todos aqueles alunos banhados de tinta vermelha como se estivessem num violento ritual.

Vale destacar aqui a atuação da jovem Garance Marillier que já trabalhara com Julia Ducournau no seu primeiro trabalho como diretora, num curta chamado JUNIOR (2011). A atriz consegue expressar um certo ar de ingenuidade com olhares sempre de baixo para cima como se ela tivesse medo de encarar quem estivesse a sua frente, preferindo apenas observar. E diretora trabalha muito bem os enquadramentos para filma-la geralmente olhando um pouco para cima expondo seus grandes olhos de aflição.

Justine tem olhar ingenuo e profundo que é bem explorado com belos plongées.

RAW é um filme que consegue criar tensão sem precisar apelar para o susto barato ou gore gratuito. Com um trabalho perfeito de ambientação o filme cria um vínculo entre seus personagens e o público para que entendamos que tudo o que filme que falar é sobre conexões.


FICHA TÉCNICA

Direção: Julia Ducournau
Roteiro: Julia Ducournau
Fotografia: Ruben Impens
Trilha Sonora: Jim Williams
Ano: 2016
País: França
Gênero: Terror / Suspense / Drama
Classificação: 18 anos
Duração: 99 min. / cor
Título Original: Raw

Elenco: Garance Marillier, Ella Rumpf, Rabah Nait Oufella.

 

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