OS MEYEROWITZ: FAMÍLIA NÃO SE ESCOLHE, 2017 | Crítica

Mais um filme que chega a mim com altas expectativas gerada por um hype que sempre me preocupa. O filme estreou em Cannes onde foi bem recebido por grande dos críticos ali presente. Entretanto, não foi preciso esperar tanto tempo assim para que pudéssemos ver o filme, afinal, numa ação cada vez mais comum, a Netflix comprou os direitos de distribuição e exibição do longa e “Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe” estreou na plataforma de streaming poucos meses depois, mas não sem antes ser exibido no Festival do Rio onde também recebeu boas críticas.

No filme, acompanhamos Danny (Adam Sandler), um compositor sem muito sucesso que vive uma relação conturbada com seu pai, Harold (Dustin Hoffman), um famoso mas renegado artista plástico. Esse relacionamento conturbado afeta não só a ele, mas a todos os demais membros da família.

A primeira observação a respeito de “Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe” está no seu título, que no original em inglês é “The Meyerowitz Stories (New and Selected)” que numa tradução livre seria algo como “As Histórias de Meyerowitz (Novo e Selecionado)”. Este título original combina muito mais com a proposta do diretor e roteirista Noah Baumbach que em recente entrevista dada ao The Director’s Cut – A DGA Podcast, diz que a escolha do título se deve ao fato do filme falar sobre uma família que não consegue atingir uma união, fazendo com que cada um viva uma história a parte um do outro.

Danny é um músico que vive com a filha Eliza (Grace Van Patten), uma jovem aprendiz de cineasta. Apesar de sua relação com a filha ser de muito companheirismo, seu casamento está ruído, tanto que a esposa sequer aparece no filme. Sempre que Danny tenta compartilhar sua história ou sua vida com seu pai, o mesmo o ignora e o interrompe com as suas histórias e seus problemas, e isso se repete o filme todo. Todos os membros dessa família sem suas próprias histórias isoladas um do outro. Isso fica evidente tanto no texto de Baumbach quanto na excelente mis-en-scène que o diretor propõe. Repare como há diversos planos onde a câmera segue um personagem que se movimenta em tela enquanto o outro sai de quadro. Depois, este que estava fora aparece em quadro mas logo sai novamente, demonstrando a distância emocional entre eles. Há sempre algo distanciando os personagens. É um trabalho muito bem executado por esse diretor que consegue mesclar um texto inteligente e bem humorado com uma direção segura e criativa.

Falar de um filme que conte com a presença de Adam Sandler, sem falar de humor seria uma insanidade, afinal, toda sua carreira foi calcada na comédia. Mas diferentemente do que estamos acostumados a ver nos trabalhos do ator, aqui temos um Adam Sandler muito mais preocupado em atuar e não somente em fazer “caras e bocas” (ainda se usa esse termo?). Sua atuação mescla com muito competência um humor ácido com momentos dramáticos, o que lembra bastante o Jim Carrey e seus excelentes dramas. O filme ainda conta com um contido mas nem tanto Ben Stiller que interpreta Matthew, irmão mais novo, e com a atriz Elizabeth Marvel que vive Jean, a caçula. Todos estão excelentes em suas excentricidades, o que claro remete aos “Os Excêntricos Tenembauns” de Wes Anderson. Alias, ambos os filmes tem uma qualidade em comum – a fragilidade familiar e seus constantes conflitos e segredos.

Noah Baumbach consegue extrair de seus personagens toda complexidade de suas vidas, que os levaram a viver tão distantes um do outro. O roteiro tem um texto afiadíssimo e cheio de nuances. Todos os 4 personagens principais têm suas camadas bem exploradas, o que faz com que nos interessamos por eles. Ainda que um ou outro personagem secundário por vezes fique deslocado, logo o filme volta suas atenções para o que realmente importa na história.

O filme divide bem seu tempo em explorar cada um dos três filhos do velho Harold e mostra tudo o que está por trás de tanto dificuldade de relacionamento. Não são meras birras causadas por bobagens. São problemas reais, que revelam a complexidade de uma vida movida pelo individualismo, onde os interesses individuais se sobressaem ao coletivo familiar. O filme expõe uma família cheia de talentos mas que em momento algum os utiliza para criar uma harmonia entre eles.

“Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe” é um filme bem humorado sobre as relações familiares de uma talentosa família. Um filme engraçado, mas sem nunca perder a seriedade de seus atos. Se enrola um pouco nos últimos 15 minutos, mas de forma alguma se permite fugir de sua temática. Os elogios que recebera em Cannes não foram à toa. O filme é simplesmente delicioso!


FICHA TÉCNICA
Direção: Noah Baumbach
Roteiro: Noah Baumbach
Fotografia: Robbie Ryan
Trilha Sonora: Randy Newman
Ano: 2017
País: Estados Unidos
Gênero: Drama / Comédia
Classificação: 16 anos
Duração: 112 min. / cor
Título Original: The Meyerowitz Stories (New and Selected)
Elenco: Adam Sandler, Grace Van Patten, Dustin Hoffman, Ben Stiller.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *