OKJA (2017) | Crítica

Nada como uma polêmica para criar expectativas diante de um filme, especialmente quando envolve-se a amada e odiada Netflix. E essa polêmica nasce durante o Festival de Cannes de 2017 quando o diretor e presidente do juri, Pedro Almodôvar disse que seria um enorme paradoxo que a Palma de Ouro ou qualquer outro prêmio fosse entregue a um filme não possa ser assistido nas salas de cinema, referindo ao filme OKJA que não fora e nem será exibido nas salas de cinema, e sim na supracitada rede de streaming. Como se já não fosse polêmica suficiente, durante a exibição do filme, alguns jornalistas mais tradicionais vaiaram o logo da Netflix por julgar que ela “estraga a experiência de se assistir a filmes no cinema”. Isso gerou diversos debates acerca da Netflix vs Cinema.

Enfim, controvérsias à parte, a verdade é que isso gerou publicidade para o filme, criando uma forte expectativa pelo aguardado dia da estreia do longa. E em partes o filme justificou esse expectativa tão altas, com uma história criativa, emocionante, crítica e ácida.

Na história, uma gigantesca multinacional chamada Mirando Corporation cria uma espécie de super-porco-gigante geneticamente modificado para gerar uma nova linha de produtos alimentícios com menor custo. Afim de serem feitos testes, os animais são enviados à diversas fazendas do mundo inteiro e expostos à diversos climas e tratamentos, e um desses animais, enviado para uma linda fazenda na Coreia do Sul é Okja, que recebe tratamento cuidadoso da jovem Mija como se fosse um animal de estimação.

Os 20 primeiros minutos do filme servem para criar laços entre a garota e o animal. A relação entre eles é de pura amizade e companheirismo. O diretor Bong Joon Ho cria uma ambiente lúdico onde ambos se divertem e demonstram conhecer perfeitamente um ao outro, conseguindo até mesmo se comunicarem por meio de gestos e olhares.

Mija brinca despreocupadamente com seu amigo animal numa clima leve e harmonioso, reforçando a amizade entre eles.

Mas se por um lado, a conexão entre Mija e Okja é construída com perfeição, o mesmo não posso dizer da nossa conexão com o animal gigante. O CGI não convence (justificável pelo orçamento de apenas U$ 50 milhões) para que consigamos nos conectar com Okja. Tanto a textura quando a interação de Okja com o cenário, artificializa demais o animal e ao que tudo indica, Bong Joon Ho teve ciência disso, e utiliza-se de close-ups nos olhos de Okja para transmitir emoção, e uma excelente trilha sonora que ajuda a compor um ambiente lúdico e fantasioso.

O foco nos expressivos olhos de OKJA compensa o CGI nada convincente que artificializa o animal gigante.

Esses recursos compensam a artificialidade do CGI nos primeiros 20 minutos mas não sustenta por muito tempo e o filme começa a parecer plástico demais até o minuto 50′, onde o enfim, o filme encontra seu ritmo e quebra o magia lúdica que vinha construindo até então. Bong Joon Ho mostra que não estamos falando de apenas uma fantasia, mas sim de uma pesada crítica aos maus tratos de animais e às industrias alimentícias.

Toda leveza e bom humor do primeiro ato do filme é substituída por uma carga de tensão que é reforçada pela mudança de ambiente – de uma colina paradísica cheia de árvores e cachoeiras, para uma cidade cinza, cheia de industrias e sem qualquer elemento de demonstre humanidade. A fotografia escurece, a trilha sonora ganha tons graves, as interpretações ganham seriedade, e mesmo quando há o mínimo de humor, ele é suplantada pelo clima tenso que o filme passa propor.

Muito dessa mudança se deve a presença do ator Paul Dano, que interpreta Jay, um ativista linha dura que não mede esforços para denunciar a multinacional por maus tratos aos animais. A presença do ator é imponente e transforma o filme completamente. Dano consegue dar peso e seriedade ao personagem, com seu terno clássico e postura imponente. E mesmo sendo um cara firme e duro, o ator consegue no olhar transmitir confiança no discurso e confiabilidade. Cada dia que passa eu gosto mais desse ator!

Paul Dano consegue dar peso e seriedade ao personagem e mesmo sendo um cara firme e duro, o ator consegue no olhar transmitir confiança no discurso .

O filme se encontra por completo no terceiro ato, onde ele expõe claramente sua crítica às industrias alimentícias e seus tratamentos brutais para com os animais. O filme conversa bem com documentários como Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade, e What the Health (ambos disponíveis na Netflix) que denunciam grandes corporações que processam produtos de origem animal e seus impactando a vida das pessoas.

Obviamente é um tema que levanta muita discussão acerca, mas mesmo que você não concorde com as posições do filme é sempre bom quando uma obra se propõe a por a discussão na mesa. Especialmente hoje no Brasil, onde esta discussão esteve em forte holofote quando deflagou-se a Operação Carne Fraca. Apesar  de recentemente a discussão ter amornado um pouco, é um assunto que sempre vem à tona, e é possível que com a estreia de OKJA isso volte a ser pauta na sociedade.

Outro grande destaque do filme está na atuação de Tilda Swinton que mesmo tendo pouco tempo de tela, ela consegue mais uma vez mostrar seu talento com personagens excêntricos. Aqui ela vive as gêmeas Lucy e Nancy Mirando, herdeiras da multinacional Mirando Corporation, e assim como acontecera no filme anterior do diretor (Expresso do Amanhã, 2013) Tilda consegue criar uma personagem completamente caricata mas ainda sim crível, afinal não é difícil encontrarmos grandes executivos com discursos parecidos com o da personagem.

Tilda Swinton consegue criar uma personagem completamente caricata mas ainda sim crível, afinal não é difícil encontrarmos grandes executivos com discursos parecidos com o da personagem.

Já o personagem de Jake Gyllenhaal, um apresentador de TV histérico e sem graça, é algo do qual não consegui entender. Sua função na história é nula, o que me causou muita estranheza haja visto a relevância narrativa de todos os demais personagens.

OKJA é uma obra de opinião consciente, discurso potente e uma clara mensagem de denúncia. Emocionante e lindo, o filme nos carrega pelas mãos através de uma história de amizade entre uma criança e um animal para quebrar a narrativa e nos mostrar o entremeio das indústrias alimentícias e das grandes corporações que maltratam animais em busca de lucros incalculáveis ignorando o impacto disso na sociedade. Assisti-lo sem se emocionar com o terceiro ato é uma tarefa quase impossível.


FICHA TÉCNICA
Direção: Bong Joon Ho
Roteiro: Bong Joon Ho
Fotografia: Darius Khondji
Trilha Sonora: Jaeil Jung
Ano: 2017
País: Estados Unidos / Coreia do Sul
Gênero: Drama / Fantasia
Classificação: 14 anos
Duração: 118 min. / cor
Título Original: Okja

Elenco: Tilda Swinton, Paul Dano, Seo-Hyun Ahn, Jake Gyllenhaal.

 

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