MULHER MARAVILHA (Wonder Woman, 2017) | Crítica

Eu costumo parafrasear as seguintes palavras: “todo filme é um retrato da sua época”. E MULHER MARAVILHA é um retrato da nossa época – uma época onde depois de meio século temos novamente uma diretora sendo premiada em Cannes. Uma época onde temos blockbusters (no plural) protagonizada por mulheres ganhando as salas de Cinema. Época onde temos um forte movimento para que atrizes e diretoras tem as mesmas benesses que seus respectivos masculinos.

Seria esse o primeiro filme solo de uma heroína no cinema? Não. Já tivemos MULHER GATO (2004) e ELEKTRA (2005) mas ambos pessimamente dirigidos por homens que deixaram a impressão para os estúdios de que filmes sobre heroínas não fazem sucesso. Tanto que um filme da Mulher Maravilha já vinha sendo estudado há anos, mas os estúdios não queriam investir “nesse tipo de filme”.

Mas eis que em 2017 finalmente temos um filme protagonizado por uma heroína e dirigido competentemente (isso precisa ficar bem claro) por uma mulher. Mas aí você, caro leitor me pergunta: “mas isso faz diferença no filme?”. A resposta é sim, e não que um homem não pudesse ter feito um filme da MULHER MARAVILHA, mas quando a obra é dada nas mãos de alguém que por muitas vezes se viu no lugar da sua protagonista isso torna o filme muito mais pessoal (falaremos mais disso a frente) o que transmite-nos uma certa honestidade.

Acredito que a essa altura você já deva conhecer a história da Mulher Maravilha, mas resumindo de forma simples, Diana (Gal Gadot) é uma princesa das Amazonas, que faz parte de um grupo de mulheres criadas por Zeus para proteger a Terra de Ares, o Deus da Guerra (não, não estamos falando de Cavaleiros do Zodíaco). Essa sinopse por si só não diz muito sobre o filme, afinal essa é a leitura superficial do filme.

O filme na verdade narra a história de uma Mulher que para cumprir sua missão precisa que sua voz seja ouvida num mundo onde as pessoas buscam abafa-la o máximo que puder. Te pareceu um filme feminista? Pois é, MULHER MARAVILHA É UM FILME FEMINISTA!

É possível que o filme seja assistido e o discurso de empoderamento passe batido para o espectador. Mas o discurso está la o tempo todo com um roteiro que não precisa parar a história para conta-la. Há uma fina sintonia entre a mensagem que a diretora Patty Jenkins quer contar e a história proposta pelo filme. E é ai que a direção nas mãos de uma diretora faz a diferença. Assim como Diana precisou se provar o tempo todo, mesmo sendo uma das pessoas mais poderosas do universo, Patty Jenkins enfrentou o mesmo problema até mesmo antes de começar as filmagens com a desconfiança de muitos.

A diretora que já se provara competente em MONSTER (2003) teve de esperar 14 anos para voltar a dirigir um longa, o que gerou uma certa apreensão em algumas pessoas como por exemplo jornalistas da Hollywood Reporter que tuitaram uma certa desconfiança no fato da Warner ter confiado um orçamento de 150 milhões (ainda abaixo de Batman Vs Superman e Esquadrão Suicida) numa diretora que dirigira apenas um filme de 8 milhões há 14 anos atrás. Ou seja, além da dificuldade em se chegar à direção do filme, Jenkins precisou se provar “merecedora” daquele cargo a ela confiada mesmo já tendo feito isso.

“Ah Fernando, mas isso aconteceria com qualquer diretor”. Será mesmo? Esse assunto vai longe então vou linkar no texto uma matéria da crítica de cinema Isabel Wittman onde ela levanta o tema de Cineastas e grandes orçamentos. Vale a leitura para se aprofundar na discussão.

Sobre cineastas e grandes orçamentos

Mas vamos voltar para o filme. Diana por viver somente com mulheres na Ilha de Temiscira, desconhecia o que era diferenciação entre homens e mulheres e quando ela precisa lidar com isso há a indignação, como o fato dela não poder estar na presença dos homens do exército pelo único motivo de ser mulher. Para ela aquilo tudo soava absurdo, o que realmente é!

Esse papel de “peixe-fora d’água” que ela interpreta funciona perfeita para criar essa sensação de “as coisas não deveriam ser assim” além de mostrar a Guerra por outro viés que não fosse do homem soldado. Diana não tem um lado para defender, ela apenas quer acabar com a Guerra independente das razões (como se houvesse razão para uma guerra).

Uma das cenas mais bonitas do filme é quando ela não entende o por que lutar numa guerra visando paz quando não somos capazes de ajudar uma pessoa que está ao nosso lado. Esse embate torna o filme interessante, por que ela começa a perceber que a Guerra é muita mais do que um país querendo vencer o outro. Na Guerra não há vencedores ou perdedores, e sim esse discurso é muito clichê, mas o filme não se apega em apenas dizer isso – ele mostra isso e nos coloca no meio disso tudo. Todos os dilemas de Diana são bem construídos para que sintamos o peso deles, e isso só foi possível graças ao talento de Gal Gadot, que abraça a ideia e mergulha a fundo na personagem. Sua postura esguia e seu olhar ingênuo transmite uma certa vulnerabilidade, mas quando ela entra em ação, o resultado é muito convincente.

Mulher Maravilha precisa enfrentar seus dilemas

Alias, vale dizer que Patty Jenkins bebeu muito da fonte de Zacky Snyder na direção. Tanto no visual do filme quanto na movimentação de câmera, o estilo Snyder que deve ser o estilo que todos os filmes da DC seguirão é bem presente. Há sim uma paleta de cores um pouco mais colorida, mas isso dura apenas os primeiros 20 minutos de filme que depois assume cores acinzentadas como paleta padrão.

Mas essa escolha de paleta de cores funciona perfeitamente até como alusão ao uniforme da própria Mulher Maravilha. Há um bom uso do azul no primeiro ato do filme, depois o cinza da parte prateada do uniforme surge e o filme se encerra com cores vermelhas e douradas criando uma harmonia visual que divide muito bem os atos do filme.

Mas não pense que essa paleta mais escura após o primeiro ato deixa o filme carregado. O humor presente no filme cria um equilíbrio entre esses elementos deixando-os muito mais leves quando necessário, e quando o filme pede mais tensão eles dão espaço sem tirar a gravidade dos acontecimentos, algo recorrente em filmes baseados em quadrinhos.

Cores quentes e frias criam harmonia entre os elementos

Até agora parece que tudo no filme é maravilhoso, lindo, melhor filme do ano… mas calma que não é bem assim. Saí do cinema pensando em um monte de escolhas erradas feitas no filme. Mas depois de meditar um pouco mais, cheguei a conclusão de que não foram escolhas erradas e sim escolhas que a mim não agradou mas que podem ter agrado à outros. Como por exemplo a uso recorrente de slow-motion para deixar as lutas mais elegantes e estilizadas. Ficou bonito? Sim. Muita gente gostou? Até onde eu percebi sim. Então mesmo eu não tendo gostado, não foi uma escolha errada. Assim como também a resolução do conflito final que para mim não funciona, assim como não funcionou em BvS. Mas foi uma escolha pensada desde o começo do filme, e apesar de não ter não gostado, não significa que ela esteja errada.

É preciso também fazer um elogio a Chris Payne. Como ele está confortável no papel de Steve Trevor e como funciona a química entre ele e Diana! É divertidíssimo vê-lo se esforçando o máximo para não ser o babaca machista, que é o que homens em desconstrução fazem. Trevor é o homem comum, com medos comuns e desejos comuns, que mesmo reproduzindo alguns pensamentos do “homem que precisa ensinar a mulher”, ele tenta melhorar e se esforça para não ser essa pessoa.

MULHER MARAVILHA é um filme mais importante do que meu gostei ou não gostei. Assim como em 2000, X-MEN, O Filme abriu as portas para os filmes baseados em quadrinhos, agora com o sucesso de MULHER MARAVILHA as portas devem ficar abertas para que outras diretoras possam fazer seus filmes, de heroína ou não.

Termino esse longo texto com a sensação de finalmente poder gostar de um filme da DC sem me sentir culpado por isso.


FICHA TÉCNICA

Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Allan Heinberg, Zack Snyder, Jason Fuchs.
Fotografia: Matthew Jensen
Trilha Sonora: Rupert Gregson-Williams
Ano: 2017
País: Estados Unidos
Gênero: Aventura / Ação / Fantasia
Classificação: 14 anos
Duração: 141 min. / cor
Título Original: Wonder Woman

Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright,Connie Nielsen, Danny Huston.

 

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