MÃE! (Mother, 2017) | Crítica

São exatamente 2:39 da madrugada e cá estou eu tentando encontrar palavras para expressar o que sinto em relação ao novo trabalho de Darren Aronofsky, MÃE!. Na verdade, a dificuldade não é bem encontrar as palavras, e sim organiza-las sem correr o risco de soltar spoilers do filme, o que poderia estragar e muito a experiência de quem ainda não o viu. Portanto, decidi recorrer a velha e segura tática de dividir o texto em duas partes – uma livre de spoilers para aqueles que querem saber do que se trata o filme e quais são os elementos técnicos e narrativos desse longa, e uma outra parte com spoilers liberados, onde darei minha leitura e meu entendimento do filme. Aviso dado, vamos falar do filme.

PARTE 1

MÃE! conta a história de uma jovem restauradora (Jennifer Lawrence) que se casa com um poeta mais velho com bloqueio criativo  (Javier Bardem) e juntos vão morar numa casa isolada onde começam a receber visitas de desconhecidos que testam a harmonia do casal. Sim, temos uma sinopse bem simples, e de certa forma até desinteressante, porém, MÃE! não construído em cima da história de superfície, e sim em suas camadas cheias de simbolismos.

Vamos começar pelo fato de os personagens não terem nomes, o que já dá a dica de que eles não representam eles próprios e sim, são representações de algo maior. Mas vamos deixar para falar das representações na segunda parte do texto e atentemo-nos a história de superfície do filme, que começa com o casal recebendo a inoportuna visita de um homem estranho (Ed Harris) que se diz fã do trabalho do poeta e passa a se hospedar na casa que está sob cuidados reparatórios da jovem restauradora. No dia seguinte surge outra visita, da esposa do homem estranho (Michelle Pfeiffer) que passa a questionar as decisão tomadas pela jovem na casa, como por exemplo a opção de não terem filhos. A partir dai, Darren Aronofsky mergulha o público numa série de eventos bizarros e perturbadores que vão desafiar a paciência, não só de quem está assistindo ao filme mas principalmente da personagem da jovem restauradora.

O filme é todo focado em Jennifer Lawrence, que carrega o filme nas costas. Na verdade ela carrega no rosto, por que as lentes de Darren estão complemente obcecadas pelo rosto da personagem. Poucos são os momentos em que a câmera dá um espaço para a ela,  transferindo toda a sua angustia para o público. A escolha da atriz se faz acertada uma vez que ela consegue com expressões faciais, tom de voz e postura corporal transmitir uma certa inocência mesclada com pureza e desconforto. Quando o filme exige dela uma interpretação explosiva e aterrorizante, a atriz se porta bem. Já Javier Bardem, o poeta, é mais sucinto na sua atuação de um homem frio, passivo e misterioso. Sua atuação é linear e há poucos momentos que exigem dele uma elevada carga dramática, algo que acontece também com Ed Harris que cumpre seu papel sem muito destaque. Já Michelle Pfeiffer está incrível com uma mulher misteriosa, provocadora e desconsertante. Sua presença na casa é incomoda e sua interação com Ed Harris é hilária, bizarra e assustadora ao mesmo tempo.

Alias, é preciso dizer que esse sem dúvidas é o filme mais bem humorado do diretor, ainda que seja um terror psicológico com cenas bem perturbadoras. Seu primeiro ato é leve, com bastante humor à la sitcom mas aos poucos as situações que antes arrancavam risadas, começam a arrancar suspiros e causar desconforto no segundo ato, culminando em um aterrorizante terceiro ato. Esses momentos entre o primeiro e segundo ato pode gerar duas situações no público:  1) de apreensão e engajamento por não entendermos onde Aronofsky vai nos levar com aquelas situações surreais, ou 2) de uma certa frustração por já termos entendido onde aquilo tudo vai levar antes mesmo do terceiro ato. Em ambos os casos, a experiência de assistir ao que está sendo mostrado em tela é perturbador.

A alegoria crítica a forma como lidamos com figuras icônicas, com nossa obsessão pelo sagrado, pelo ídolo e pelo messiânico propõe discussões interessantes. Há inclusive uma novidade temática aqui, que é uma forte crítica ambiental, possivelmente influenciada pela formação do diretor como biólogo de campo pela The School for Field Studies no Quênia em 1985.  Todavia, um filme do Darren Aronofsky não pode faltar seu tema onipresente – a obsessão. Mas se o tema obsessão, que acompanha Darren desde sempre está presente, dois elementos que sempre o acompanhou ficaram discretos aqui. A trilha sonora  impactante e a cinematografia exuberante. A ausência de habitual compositor Clint Mansell se faz justa pois o filme não exige muita trilha. É um trabalho de criar ambientação, mesclando a trilha com sons oriundos da casa, como o ranger do assoalho desgastado, o som de portas abrindo e fechando, passos no piso, goteiras e assim por diante. Na atualidade ninguém melhor do que Jóhann Jóhannsson, que recentemente trabalhou em A CHEGADA de Dennis Villeneuve, para criar essa ambientação discreta. Quanto a cinematografia de Matthew Libatique, a escolha de filmar em super closes, limita um pouco os tradicionais enquadramentos que Darren e Matthew vinham apresentando nos filmes anteriores. MÃE! é um filme escuro, de certa forma até propositalmente feio visualmente, mas para a proposta de retratar um casa em deterioração funciona bem.

Cinematografia de MÃE! é escura e suja, mas retrata bem a deterioração da casa.

A equação para você, ilustre leitor e leitora, entender do que se trata MÃE! é a seguinte: Pegue  a psiquê de CISNE NEGRO (2012) some com  o didatismo de NOÉ (2015) subtraia pelo score de Clint Mansell e multiplique pelo talento de Jennifer Lawrence. O resultado é um filme interessantemente perturbador e de discurso potente, porém, que subestima em certos momentos a capacidade de seu público. Levando em consideração seus últimos três filmes, parece ser uma tendência atual do diretor.


PARTE 2

A partir daqui teremos spoilers do filme! Então leia por sua conta e risco.

MÃE! em um dos raros momentos de plano-aberto e boa iluminação.

Quando eu disse acima que podemos dizer que MÃE! tem elementos de NOÉ, não é só pelo didatismo e sim pela temática e pela fonte de inspiração para o roteiro – a Bíblia.

Darren sempre flertou muito com a temática religiosa. Fez isso em PI (1998), em A FONTE DA VIDA (2000), em NOÉ (2015) e repete em MÃE! (2017). A forma alegórica com que Darren dispõe seus personagens deixa bem claro que o filme é um resumo de Gênesis à Apocalipse. Comecemos pelo personagem de Javier Bardem. Ele é ELE! Sim, ELE em caixa alta, como mostra os próprios créditos do filme. Esse ELE representa DEUS, ou o Criador, como Darren o chama em NOÉ. ELE é o criador da casa, que como é dito no próprio filme, representa o Paraíso, também conhecido como Jardim do Éden (Gênesis 2:15). Ali, ELE designa a personagem de Jennifer Lawrence para fazer daquela casa um verdadeiro Paraíso. Essa personagem é a MOTHER (novamente os créditos entregam). Essa MÃE provavelmente seja a Mãe-Natureza, responsável pela restauração da Terra (Gênesis 1:20-25). A partir daqui fica fácil entendermos o restante do filme e suas representações.

ELE convida um casal para se hospedarem na casa. Primeiro o HOMEM (Ed Harris) e depois a MULHER (Michelle Pfiffer), que obviamente representam Adão e Eva (Gênesis 2:22). Ambos ficam encantados pelo criador e sua criação, mas logo desobedecem a ordem de não entrar no quarto onde encontra-se um cristal valioso, numa clara referência ao fruto proibido (Gênesis 2:17). Ele acabam quebrando objeto e logo são expulsos da casa pela MÃE. Depois aparecem na casa que começa a apresentar vários defeitos, os dois filhos do casal. Agora ficou fácil né? Caim e Abel. Assim como na história bíblica, Caim se envolve numa briga com Abel e acaba matando-o com um golpe fatal (Gênesis 4: 2-5).

Com toda essa comoção, ELE resolve reatar seus laços com a MÃE o que gera um filho, representando JESUS (Mateus 1: 18-25). Com o nascimento de seu filho, ELE volta a ter inspiração para escrever, e assim publica seu novo poema, uma clara referência ao NOVO TESTAMENTO. Esse novo texto atrai centenas de pessoas que vão até a casa para terem contato com seu ídolo. Mas essas pessoas começam a agir de forma invasiva e começam a destruir a casa mesmo com a MÃE implorando que parem de fazer isso. Uma clara crítica a intervenção humana na natureza e a consequente destruição dela.

Após o nascimento do filho, ELE apresenta-o a humanidade que no fervor da idolatria e da confusão que isso lhes causara, acabam matando o bebê numa das cenas mais perturbadores do filme (Lucas 23: 1-46). Ele pede que a MÃE tenha compaixão do povo, pois eles estão sofrendo com a perda do bebê, mas a MÃE não se conforma e se volta contra todos, inclusive ELE, incendiando a casa e destruindo à todos, inclusive a si própria (Apocalipse 11:16-18).

Nesse momento ELE explica para a MÃE quem ele realmente é e qual era o seu plano. Então a MÃE entrega seu coração no momento de sua morte (vide o poster do filme que já entrega o final, portanto não conte isso a ninguém que não tenha visto o filme ainda) que é utilizado para restaurar a Terra (casa) e começar a história novamente (Apocalipse 21:5).

Nesse momento Darren consegue recontar toda a história da humanidade segundo a Bíblia num filme de 120 minutos de duração. MÃE! não é um filme de fácil digestão. Sua narrativa provocativa e seu final excessivamente explícito e didático pode desagradar a muitos, mas a verdade é que Darren se mostra mais uma vez um diretor consciente de seu talento e criatividade, capaz de criar histórias que não se limitam à sua superfície.

 

 

125 thoughts on “MÃE! (Mother, 2017) | Crítica

  1. Tive a mesma percepção que você, Fernando! Você conseguiu detalhar muito bem as referências bíblicas, parabéns!

    Ainda existe uma referência bem sutil no filme, quando o suposto Adão interpretado por Ed Harris está vomitando no banheiro, ELE (Javier Bardem) esconde um ferimento em suas costas. É uma clara referência a retirada de uma costela para a criação da mulher, que aparece logo em sequência.

    Um Abraço

      1. O Líquido Amarelo é exatamente o Sol. A cada temor ou danos causado a ela recorria aos dois ingredientes necessários para atenuar a sua dor (analgésico). Água mais a Luz do sol. Uma forçação química chamado fotossíntese.

        1. Obrigado Sidney,

          Por interações como essa que gosto de escrever críticas. Faz todo o sentido, afinal a coisa degringola depois que ela para de tomar esse elixir natural. Podemos até fazer uma leitura de viés ambiental com a poluição dessa água além dos efeitos da poluição na nossa atmosfera.

        2. Minha teoria sobre o liquido amarela é a de que se trata de uma alusão aos anticoncepcionais. Percebam que quando ela decide parar de toma-lo, fica gravida na sequencia.
          Abraço!

          1. Ela para de tomar na manhã que ‘descobre (sente)’ que tá grávida…não foi antes não, logo, acho que a teoria do sol e água é mais condizente 😉

        3. Não creio que seja o sol , mas alguma substância entorpecente que ela usa de forma frequente para aliviar o mal-estar. Penso em ópio- é retirado da natureza , e alivia o sofrimento dela. Quando se descobre grávida, ela põe a substância fora – pois ela entende que poderá fazer mal ao bebê.

        4. Bom, faz sentido ser o Sol até uma parte, mas isso não explica o pq dela parar de tomar, além disso, o próprio diretor diz que tal pó tem relação com a literatura da época vitoriana, mas ainda n sei ao certo oq significa.

        5. O diretor do filme deu uma entrevista, postada pelo Jovem Nerd, em que ele diz que o pó amarelo estaria associado à literatura Vitoriana! E n quis dizer mais nada hahaha
          Eu acho meio sem sentido ser o sol. Afinal, porque ela jogaria fora e pararia de tomar quando estivesse grávida? Seria a hora em que talvez ela tomasse mais vezes o remédio. E é uma abstração que a meu ver também não tem tanto nexo, porque o sol está presente em cena, ele ilumina o céu durante os dias, afinal também foi criado no Gênesis, a vegetação é verde no exterior e tudo…

          1. “Em diversos momentos do filme, vemos Jennifer Lawrence dissolvendo um pó amarelo em um copo de água e tomando. Aronofsky se recusa a responder o que exatamente a substância é, masconversando com o Jovem Nerd, ele revelou que o significado tem algo a ver com a literatura vitoriana. Charles Dickens pode ter a resposta.

            O autor usou a cor amarela para representar a decadência do modernismo — comparando isso com o filme, dá para pensar que o pó amarelo, que a princípio é visto como um remédio mas que depois é jogado fora quando a moça percebe que aquilo é mais maléfico do que ela imaginava, pode ser uma alegoria para representar o progresso — algo que é benéfico para a humanidade mas que acaba destruindo a natureza.

            Outras hipóteses levantam a ideia de que Aronofsky quis referenciar o conto O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman. Na trama, uma mulher psicótica é confinada em um quarto e acaba ficando obcecada com um papel de parede amarelo.”
            Link da análise: https://jovemnerd.com.br/nerdnews/as-muitas-alegorias-de-mae-e-seus-significados/
            Link do vídeo: https://jovemnerd.com.br/nerdnews/mae-jovem-nerd-conversa-com-darren-aronofsky-sobre-as-metaforas-do-filme/

          2. Gente, prestem atenção, o que ela toma como remédio é só tinta amarela, é a mesma tinta usada para colorir a massa corrida no início, o mesmo tipo de frasco. O remédio não tem efeito prático, me parece apenas um placebo utilizado apenas como efeito psicológico, pelo que percebi o efeito é apenas pela cor amarela que pode significar prosperidade, vivacidade, alegria, ou seja, quando ela se vê aflita por estarem tumultuando a rotina de sua casa ela toma uma dose de alegria para acalmar o coração, quando o bebê está a caminho não tem mais a necessidade (psicológica) de se apoiar em “remédios”. Amarelo, alegoria, alegria.

        6. Gente, tbm fiquei encafifada com esse líquido amarelo. Boa a sua interpretação, Sidney, a ideia casa, mas não faz sentido ela querer parar de tomá-lo, hein…

      2. Li que o pó seria a esperança, pois ela tomava sempre que sentia dores, quando ela fica grávida para de tomar acreditando que o bebê seria a salvação

      3. Dizem que é referência a The Yellow Wallpaper, obra vitoriana sobre um marido que oprime e droga a esposa com depressão pós-parto, que acaba enlouquecendo e fica obcecada pelo papel de parede amarelo da casa onde está presa.

        1. Tinha feito uma associação similar. Algo relacionado com desejo de engravidar. Já grávida, não precisa tomar mais. Lembrei até do líquido amniótico que protege o feto.

      4. Nossa, eu adorei o filme. Sensacional!! Sobre o pó, eu enxerguei de outra forma. Todas as teorias que li não explica o fato dela passar o pó na massa da parede. Por isso eu vejo o pó com outra idéia, como a “graça divina”. Amarelo significa luz, que pode ser associado a ideia de divino. No início do filme, ela está pintando uma parede com uma cor neutra, para e olha ( com um ar de que falta algo). Então ela coloca o pó na mistura e passa na mesma parede e se afasta para olhar de novo (agora com um ar de satisfeita). Mostra que ela utilizou “graça” na criação. Ela colocou a “graça divina” nas coisas criadas por ela. A gente fala isso, que tudo que a natureza fez é perfeito e agraciado.
        Nos episódios que ela bebe o líquido, sempre em situação de caos, é como se ela buscasse um pouco de “graça”.
        Quando ela descobre que está grávida e joga o pó fora, passa a ideia que é porque ela foi agraciada (é assim que nos sentimos quando viramos mãe, divinamente agraciada). Gravidez é uma “graça”, por isso não precisava mais da mistura

    1. Que filme ruim! Pretensioso e óbvio o tempo todo, escrito de forma tão “na cara”, para que até mesmo o menos brilhante dos indivíduos possa retirar exatamente a mesma mensagem que todo o resto e se sentir brilhante por ter compreendido. Tecnicamente interessante, mas enfadonho de resto, parece que esse filme tenta ser cult (um paradoxo, eu sei, “fazer um filme cult”, mas é o que parece motivar o cineasta), apostando no proprio fracasso e contando com a admiração de estudantes de cinema para, a long prazo, trazer lucro e novas e melhores interpretações do que as que o cineasta tinha em mente.

  2. Acabei de sair do cinema.
    O filme acabou e a unica sensação que existia em mim era a certeza de que não era aquilo e eu não precisava entende-lo.
    Agora consegui seguir todos os passos de volta ao início e entender o que o diretor fez!
    Que crítica fantástica!
    Que filme louco e maravilhoso.
    Preciso ver de novo. Dessa vez com outros olhos.

      1. Também achei que a Editora dele faz referência à Judas. ELE confia nela para ler a obra antes mesmo da esposa, assim que ela chega à casa ela beija a esposa na boca, e depois, quando o negócio já tá pegando fogo quase literalmente, ela indica que a esposa é a inspiração e manda matá-la. Achei pesado e só entendi na segunda vez que assisti!!!

  3. Filme razoável, anacrônico, com interpretação dúbia e realização sem as devidas proporções de lógica. Uma interpretação alternativa de conceitos bíblicos, levados a anarquia e com resultado sofrível. Uma heresia em relação aos escritos antigos, trazendo muita contradição, inadaptação, inadequação, desambientação e inconformidade, bem ao estilo em que se ressuscitam situações já vividas e com versão própria, como no reality “Faceoff”. Repleto de metáforas e simbolismos e com a dislexia do roteiro em seu ápice, não valeu pela magia, aliás, nenhuma empolgação e sim pela frustração adquirida, a confusão mental de seus idealizadores e a quantidade de retóricas bíblicas adaptadas bem ao estilo moderno hollywoodiano. Só faltou o real significado da proposta, tal qual “Jesus Christ Superstar”, mal elaborado, projetado, filmado e com gosto de “Nunca mais”, mas pelo menos tinha bons atores, alguns em decadência plena e esquecidos, outros em evidência, mas faz com que não se perca o ingresso por inteiro, pois valeu pela bela sala de cinema e pela pipoca. E com certeza, mais um filme meia boca, candidato ao Oscar de 2018, assim como todos que são péssimos e que obtém o prêmio por genialidade, que no caso de “Mother”, com certeza será agraciado pela falta de criatividade, direção, fotografia e bem longe de ser uma obra prima.

    1. Não acredito que o filme seja indicado para qualquer prêmio e nem teria porquê. Apesar de ter gostado do filme, ele tem problemas sim e realmente não é uma obra prima. Quando a leitura e visão deturpada dos escrito bíblicos, eu vejo mais como um visão que diretor tem no material fonte. O que eu posso questionar é a estrutura narrativa didática que prejudica a apreciação e reflexão acerca da obra.

      Obrigado pelo excelente comentário.

      1. Obrigado a você por nos proporcionar um espaço para debatermos sobre a obra. Expor nossa opinião, nossa crítica e responder com educação e com sensibilidade é raro. Como aprecio a bela arte do cinema, não pactuo com obras tidas como geniais, mas que na verdade são devaneios e distorções de seus idealizadores. Mas como entretenimento até que serve, pois não é de todo ruim, apenas confuso e dissimulado. Adaptar para os tempos modernos, histórias milenares, soa como heresia, principalmente se for uma adaptação tosca e confusa, sem propósitos definidos e fazendo com que o espectador tenha uma duvida quanto à proposta e conteúdo. Não conheço uma pessoa que assistiu a película e se deu por satisfeito sob todos os aspectos. Não desaconselho ninguém, apenas como crítico contumaz, defino exageros e propósitos desconexos e convido a todos assistirem para que sob óticas distintas consigam absorver a proposta do diretor em sua totalidade, o que não fui capaz. Um abraço Fernando e parabéns pela sinopse, ficou excelente.

        1. como é, reproduzir uma obra milenar configura heresia? Heresia é um ato contrario a uma doutrina religiosa ou então que é rechaçado pela autoridade de determinada religião. Levando a séria a sua opinião, isso signficia que qualquer obra artistica (filme, no caso) deve ser compativel com a doutrina religiosa para nao ensejar heresia. Ou seja, pouco importa a criatividade ou a expressão artistica do autor, deve é haver compatibilidade doutrinária para que a obra não seja considerada heresia.
          Conjeço uma religião aí que tem assombrado a humanidade e assassinado milhões de pessoas sob o mesmo argumento. Achei que tinhamos superado essa fase.

        2. Acho que o propósito é justamente causar incômodo, fazer o público sair da letargia. Parar para pensar: Espera, isso não se faz na casa de ninguém!
          A mãe sem filhos, espancada no final, após ver um monte de fanáticos como zumbis comerem seu filho (literalmente o corpo e o sangue); a ferida que fica na casa após um irmão matar o outro e que nunca cicatrizar; a mulher submissa que faz tudo; o aumento absurdo de pessoas na casa; as guerras travadas em nome do marido… Para mim são metáforas excepcionais. Heresia pra mim é o que estamos fazendo com a terra e uns com os outros. 🙂 Também comecei a fazer uma analogia quando deram presentes pelo nascimento da criança e tive a certeza quando a criança morreu. Quanto ao líquido… Ela o toma pela primeira vez, se não estou enganada, quando recebe o primeiro visitante… Teria que ver o filme novamente, mas acho que a interpretação do que é deve partir dos momentos que ela toma. O que causava o mal? Acho que eram os visitantes convidados/criados pelo marido. Uma vez que ela o ajuda a ter o próprio filho, imagina que ele, o marido, não vai mais precisar dos convidados, logo, não terá o que faz mal a ela e não precisará do remédio. Mas gostei da teoria da metáfora do sol e da água. 🙂

    2. Muito bom seu comentário. Achei meio forçadas as comparações com a bíblia, mesmo que venha sido esta a intenção do autor. Também não vi nenhuma alusão ao meio ambiente e se existe, nada a ver com a Bíblia e sim com ecochatos. Gosto mais do que ouvi após a sessão, sobre ser a respeito do processo de criação do poeta, sendo a mãe a musa e o bebê o poema e por aí vai. Vá saber. Há erros na crítica, porque o poema já estava pronto antes do bebê nascer e qdo nasce a turba já estava na casa. É o poema não pode ser uma alusão ao novo testamento, porque escrito depois da morte de Cristo.

      1. Faz todo o sentido sua colocação acerca do período de escrita, ainda que uma licença poética permita tal incoerência. Quanto a sua leitura sobre o processo de criação, é uma leitura que eu só dei mais atenção depois de debater o tema com o vocês aqui nos comentários, gosto muito dessa leitura, que a questão ambiental seja a que mais me chamou a atenção e foi o motivo principal para a criação do roteiro, conforme o próprio Darren vem comentando em suas entrevistas.

        Obrigado pelo excelente comentário. Até uma próxima!

      2. O poema significa a criação em si. Deus criou tudo em sete dias e parou, com o dilúvio (cano estourando depois que Adão e Eva povoaram a casa após a morte de Caim) a humanidade acabou e Deus voltou ao processo de criação.

    3. Não sou muito crítico de filmes, mas acho que saí do cinema com o mesmo pensamento clichê da maioria: “o que esse filme quis contar?”. Não entendi nada, o filme pra mim não fez sentido nenhum. Foi quando fui pesquisar (ainda no shopping) e vi essa referência à bíblia.
      Nossa, tudo se encaixou! Reafirmando que não sou muito crítico, mas realmente, tudo fez sentido…
      E me fez chegar até à uma análise inversa: do filme para a Bíblia. Deus, pelo amor a nós (os destruidores do filme), nos daria outra chance? Será que Ele faria tudo de novo acreditando que não fossemos quebrar o cristal? Fica a reflexão, e o meu sim de resposta. Será que vivemos nesse ciclo? Acho legal chegar à isso nem que seja apenas para refletir.

  4. Heresia, eu cometi, esquecendo de parabenizar esse excelente blog, com linguagem esclarecedora, verdadeira, fiel e com didática profissional. Um espaço que deveria ser apreciado sem restrições por todos que amam a arte mais bela. Estarei sempre por aqui, lendo seus ricos comentários. Já adicionei aos meus favoritos e todos da WEB deveriam fazer o mesmo. O seu espaço é bem estruturado e sensacional, parabéns meu amigo e grato pela oportunidade.

    1. Eu acredito que o papel da crítica não ditar o que é certo e errado, e assim abrir a discussão para o aprendizado mutuo. Eu aprendo mais com os comentários aqui no site do que lendo críticas vazias na internet cheio de predicados como “incrível, tenso, perturbador” mas que não desenvolve mais que isso. Se você tiver algum canal de comunicação (letterboxd, twitter, facebook, blog) me procura lá para gente trocar uma ideia.
      Valew pelas carinhosas palavras.

  5. Mother! – É um filme diferente, intenso, alegórico, castigador, berrante, frustrante e provocativo, assim muitos descrevem. A melhor alegoria bíblica do cinema, sem dúvidas. Muitos afirmam que é algo tão inovador, tão esplêndido, que é uma obra-de-arte na tela do cinema, que discordo e defino como prolixos alguns comentários que li. A indefinição do assunto em relação a estrutura bíblica é tão irrisória e indefinida que desafia alfarrábios e grimórios sobre seu conteúdo repleto de genialidade macabra e psicótica. E o que muitos não se deram conta que é repleto de contradições e ironias. São heresias clássicas tão intensas como algumas descritas no “Amoris laetitia” citadas por alguns Sumos Pontífices. Quando o diretor quer se destacar por obras únicas e inigualáveis, deveria seguir o sentido do “Uno Factum” e não a readaptação confusa e voltada a penumbra como foi feita nessa proposta maquiavélica, porém atual. A releitura foi péssima mas tem um sentido, já que todos deturpam a vida e analisam por sua vertente, deixando a realidade e a verdade à margem. Eu adoraria ler a crítica de Norman Jewison sobre essa sinuosa e meândrica obra. Cenas escuras de péssima fotografia, iluminação patível e roteiro lacônico. Mas se você não viu ainda, vá e analise e deixe seu comentário para acrescentar aos nossos. Creio que o Fernando ficará feliz por termos opiniões distintas, mas que chegam a um único denominador: Apreciamos o cinema, a arte, a emoção, mesmo criticando ou elogiando, mas sempre amando…!

    1. Fala parceiro! Que análise incrível. Concordo que o filme está longe de ser uma obra-prima como muitos pintam. Há um desconhecimento de cinema europeu e asiático que são tão provocativos quanto.
      Só queria pontuar a fotografia escura e granulada do Libatique, que apesar de feia, acredito que seja proposital ao retratar o estado da humanidade (segundo visão do realizador).
      Valew pelo comentário.

    2. Creio que o fato de uma obra de arte, se tornar popular ao passar em cinemas de shoppings a r$20,00 o ingresso incomodam aos parnasianos de plantão.

      Parabéns ao autor diretor Darren

    1. Segundo ele próprio a ideia é gritar (justificando a exclamação do título) tudo o que ele vinha sentido com relação da deterioração do planeta e a “ausência” de deus nessa problemática.
      Segundo Darren, que é agnóstico, se deus existe ele abandonara a humanidade para que nos destruíssemos um ao outro.

    1. Acredito que isso se dê ao fato de muitos atribuirem o bem e ao mal ao mesmo personagem, neste caso Deus.
      A primeira vez que a foto com os chifres aparece supõe que Caim quem desenha e rasga a foto, pois em genesis, é Caim que se “desentende” com Deus, por não ter conseguido agradá-lo como Abel fez.

    2. Eu reparei isso também e logo em seguida aparece o filho que está foragido e pergunta se deixaram ela sozinha e logo em seguida o Javier aparece, acho que seria tipo o surgimento do Demônio nos homens e querendo destruir a mãe-natureza, mas Deus (Javier) aparece para protege-la, talvez seja mais ou menos isso.

  6. Para completar ainda mais esse excelente comentário ainda tem o detalhe dos presentes que o bebê recebe ao nascimento. O filme não me envolveu, me causou uma sensação de perturbação extrema. Por diversas vezes senti vontade de sair da sala, mas apesar deste incomodo persisti e fui até o final. Confesso que pelo trailer esperava algo perto de O bebê de Rosemary. E ainda estou pensativo, pois o comportamento mesquinho e soberbo de ELE não me remetem em nenhum momento a figura de Deus. Mas quero aqui elogiar a crítica feita por Fernando. Leve, descritiva e esclarecedora. Parabéns!

  7. Ótima critica, eu acho que o filme além de referências bíblicas, tem referências históricas, como a mãe tem contato com o homem negro, é o primeiro contato que ela tem apos o casal e os filhos e esse homem negro seria os primeiros povos, que tiveram origem na Africa e principalmente em países onde a população negra predomina, logo em seguida esse homem se aproxima de uma mulher com traços asiáticos, que seria a aparição de novas etnias e a miscigenação, quando esse homem e mulher saem do quarto e vão para a sala, eles começam a pintar as paredes, dando referencias as modificações da humanidade na natureza, mesmo a natureza não gostando disso, já naquela cena do caos no final, seria o mundo nos últimos 200 anos, logo após a revolução industrial, o mundo evolui muito rápido, o aumento populacional enorme, as grandes guerras, as destruições da natureza sem controle, o crescimento do ateísmo, entre outras coisas, outra referências seria sobre a mulher que representa a editora do livro, ela seria a igreja católica, pois ela quer divulgar o livro rapidamente, lucrar com isso e atrair seguidores, já na cena de guerra a mesma atriz aparece matando algumas pessoas, seria uma referência a época da Inquisição, quando muitas pessoas foram mortas devido a religião, principalmente por causa do cristianismo. Irei assistir outra vez para encontrar mais coisa, excelente filme.

    1. Adorei este blog. Parabéns Fernando!
      Principalmente pela educação com que você conduz a discussão.
      Achei bacana o comentário do Pedro, pois me fez refletir sobre outros pontos que ainda não havia “digerido”.
      Durante todo o filme são mostrados símbolos, acredito que assistindo uma segunda vez iremos encontrar mais sentido.
      Gostaria de complementar aqui com outras coisas que me chamaram atenção, como por ex, a questão da cena das guerras, da distorção da interpretação do poema, onde uma certa altura pessoas falavam em nome do poeta e marcavam a testa das pessoas, tal qual ele fez em um momento.
      O corpo e o sangue do filho morto me causaram muito desconforto.
      Acredito que as guerras estão bem representadas e a total falta de respeito com a mãe natureza.
      As cenas de invasão à casa me causaram desconforto extremo a ponto de eu sair muito tensa do cinema.
      Gostaria de saber se alguém pecebeu que em um determinado momento só as mulheres estão presas em uma cela.

      1. Obrigado Carolina. Acredito que a função da crítica é abrir o dialogo e nunca fechar com imposições de filme bom 5 estrelas e filme ruim 1 estrela.
        Quanto a sua observação, preciso rever o filme, pois passou batido por mim. O tempo não está permitindo voltar ao cinema, mas quando sair em bluray é certo que verei novamente. Mas é incrível mesmo a quantidade de informações em um só filme. Parabéns pela observação.

        Caso de interesse em aprofundar eu participei de um debate de 2h sobre o filme. Segue link: http://cinemacao.com/2017/09/29/podcast-cinemacao-246-mae/

        Abraço.

  8. Olá. Fernando.
    Tambem gostei bastante do filme.. E em muitos pontos estou bem pensativo.. O líquido amarelo é um deles.. Eu vi que aronosky disse numa entrevista da relação desse líquido com a literatura vitoriana.. Vi em outro blog da possivel relação com um livro chamado de “papel de parede amarelo” da charlotte p. gilman escrito nessa época que trata de uma mulher presa numa casa por seu marido que começa a enlouquecer e devaniar com o papel d eparede amarelo da casa.. Tambem achei outro livro era que é “o rei amarelo” de robert w. Chambers tb da era vitoriana, São varios contos e um deles é sobre um livro que se lido leva a loucura, que foi mais ou menos que aconteceu.. Valeu.. Abraços.. Filme legal pra ficar encontrando e correlacionando as coisas.. Também não encontrei em lugar nenhum falando sobre o “cofre” encontrado la perto da maquina de lavar roupas .. E da rã e da mosca que passou no filme tentei correlacionar com as pragas, mas não identifiquei as outras.. Abraço..

  9. Assisti ao filme é saí com esse pensamento de que realmente se tratava de referências bíblicas mesmo. Até me confundi em um momento achando que o personagem da Jennifer Lawrence fosse de Maria Madalena. Mais enfim, agora tudo faz sentido depois dessa aula que você deu Fernando. Obrigado!!

  10. Cheguei no seu texto ainda saindo da sala de cinema. Não sei bem quando entendi “a coisa toda”, mas acho que foi na hora em que a criança nasceu. Os presentes que chegavam me fez achar que o menino era Jesus e ela seria Maria. Quando o “pai” entrega a criança aos humanos, que a matam, tive certeza. Mas não tinha me tocado de todas as outras analogias como Adão e Eva, Caim e Abel, etc. Por isso, obrigada.

  11. Ótima resenha. Só faltou mencionar a metáfora do dilúvio com a pia que quebra e inunda a casa apóia várias advertências e após a bebedeira de Noé.

  12. Parabéns, muito esclarecedor, confesso que se não fosse pela explanação não teria entendido nada, rsrsrs… Assisti com atenção plena e associar cada cena com a real intenção de Darren foi surpreendente. Agora voltei para ler todos os comentários, rsrsrs… muito bacana os diálogos

  13. Alguma explicação para a cena em que a Mãe vê algo estranho no vaso sanitário (não dá pra saber se é um bicho ou um órgão do corpo humano) e dá a descarga?

  14. Assisti ao filme a fiquei realmente intrigada, perturbada com Tudo, fiquei apavorada qdo consumiram o bebê, a humanidade é msm cruel, e é representada como loucos e insensatos,os primeiros convidados da casa são inapropriados e invasivos,uma total bagunça se forma no fim do filme, tô chocada até agora…adorei a crítica ,me trouxe luz ao contexto.

  15. Eu confesso que só entendi o filme a partir do momento que o casal desobedece e quebra o cristal. Que quando eles perguntam quem reconstruiu fica aquele silencio, e ai logo apos tive a confirmação, quando aparecem os filhos eu um deles mata o outro, ai fui ligando tudo. Porém não tinha sacado a clara referencia as religiões, e ao primeiro seguidor dele que depois se torna a própria figura do demônio ao sacrificar o menino, algo que eu observei que não sei se faz sentido é que aquilo no vaso parece um coração (?), que possa ter sido de outra Mãe Natureza anterior a Jennifer L (?) o que será que representa?

  16. Quando o filme terminou, a primeira coisa que me perguntei foi: como pode ser possível um homem ter concebido esse filme? Sou mulher, dona de casa e grávida no momento, e simplesmente o filme me pareceu uma ilustração de todas as minhas paranóias. Como um homem pode captar esses detalhes nos dá vida de uma mulher, sendo mulher no sentido mais arcaico da palavra?
    Gerar uma vida nova num.mundo tão caótico, onde as pessoas são “rebanhadas” tão facilmente, é realmente muito assustador.
    As dezenas de interpretações paralelas possíveis do filme, bíblicas ou não, ambientais ou não, fazem meu coração bater mais forte.

  17. Parabéns pelo texto Fernando! Muito bom!

    Eu saí um pouco confuso do cinema tbm… cheguei até a pensar que filme acontecia sob o olhar de uma pessoa com alguma síndrome do pânico ou algum problema psicológico. Além das coisas bizarras que aconteciam no decorrer do filme, os enquadramentos e toda a trilha sufocante ampliavam essa sensação. Mas essa minha percepção se esvaiu durante o decorrer do filme e pedi ajuda do google até que cheguei aqui. Hehehe!

    Obrigado pelo texto e pela explicação além dos comentários da galera. É muito bom ver a percepção de cada um, por isso me encorajei a escrever aqui tbm!
    Valeu!

  18. Eu penso que o pó amarelo é o sol sim. Sol + água= fotossíntese. Quando ela fica grávida, ela deixa de tomar o pó porque não precisa mais, como se Jesus representasse a própria luz. Quanto a menção vitóriana, não seria sobre Luís XVI, o rei Sol? Muita viagem?? Kkk
    O que não entendi é porque o coração do Adão foi descartado no vaso…. É a parte que ela abre aquela passagem no sótão e não encontra nada, só um sapo… (menção bíblica de Exodus?)
    Um abraço!

    1. Eu penso que o pó amarelo é o sol sim. Sol + água= fotossíntese. Quando ela fica grávida, ela deixa de tomar o pó porque não precisa mais, como se Jesus representasse a própria luz. Quanto a menção vitóriana, não seria sobre Luís XVI, o rei Sol? Muita viagem?? Kkk
      O que não entendi é porque o coração do Adão foi descartado no vaso…. É a parte que ela abre aquela passagem no porão e não encontra nada, só um sapo… (menção bíblica de Exodus?)
      Um abraço!

      1. Olá Gabriela, o que parece é que aquilo seria a costela retirada de Adão e não seu coração. Mas também fiquei bem confuso. Quanto ao líquido amarelo, essa sua visão para mim é a que mais faz sentido.

        Abraço.

        ps. Eu sempre confundo sótão com porão, até por que isso é raro no Brasil.

  19. Amei o texto e o espaço para comentar a obra. Quando sai do cinema estava com a visão do processo criativo do poeta e a mulher como musa, que depois perde seu lugar e com isso seu amor por ele (representada nas cenas do coração da casa). Confesso que apesar de tudo ter ficado bem claro quando entendi as referencias biblicas ainda acho que minha interpretação faz algum sentido. Gosto de obras que permitem diferentes interpretações, por isso gostei bastante do filme. E parabéns pela crítica e essa conexão com os leitores!

  20. Olha!!! Gostei da análise em relação ao simbolismo dele como Deus e ela como a Mãe natureza. Mas quero compartilhar uma outra visão simbólica que o filme me trouxe! Como mulher tive a sensação de que ela era extremamente oprimida às vontades dele. Um homem misterioso, frio, focado em suas obras, em si próprio apenas. Vejo uma mulher extremamente obcecada por ele. E ele precisando do amor dela, de seu cuidado para criar. Uma mulher submissa que não tem coragem de levantar a voz a um homem que ao meu ver é extremamente manipulador. Pra mim o líquido amarelo é quando ela sente a necessidade de não entrar em contato com os sentimentos e intuições dela e ele faz a personagem voltar para um estado de descontato com suas intuições. A medida que ela é cada vez mais questionada em relação ao fato de querer ter filhos ou não, o quanto gosta dele ou não. O quanto ela seria capaz de proteger os interesses dele. Ele me parece se fazer de vítima também em vários momentos. Ela se sente culpada por ele não criar. E dá a ele todas as condições para isso. Ela vai percebendo o quanto ele não olha pra ela quando ela se vê sozinha, desprotegida, e pela primeira vez questiona de forma mais enérgica que eles não estão se relacionando. Vejo aí várias questões sobre relações entre homens e mulheres. A mulher estando nesse lugar de eterna mãe dos homens. O quanto ela se sacrifica para que ele estivesse sempre no topo, no pedestal. Isso me fala de mulheres que se amam pouco. E homens que amam o amor das mulheres e se nutrem disso. E mulheres que se deixam sugar em relacionamentos violentos e invasivos. Ele não respeita o espaço dela em nenhum momento. O que me trouxe a confirmação disso é que a medida que o filme vai acontecendo ele está sempre inteiro, bonito sem nenhum ferimento. Ela vai se acabando, vai ficando feia, até espancada ela é quando tenta proteger seu filho, sua criação e tenta destruir a imagem de soberano dele. E ao final ele a suga tanto que ainda quer seu coração, o que é de mais precioso dela. Ela deixa, porque ama demais. O filho é um marco, momento que ela rompe com esse amor imaculado que ela tem por ele. Pois percebe o quanto ele é fraco e não vai proteger sua família. O que o nutre são esses amores. Esses diamantes. Essas mulheres que são jóias e não se reconhecem, até que virem cinzas. Essa é uma visão, uma camada de interpretação. Existem várias outras. Gostei das que eu li por aqui. Mas confesso que me tocou nesse sentido. Sem querer defender qual a certa só quis compartilhar o que senti.

    1. “homens que amam o amor das mulheres e se nutrem disso.” Não poderia resumir melhor esse leitura! Há realmente essa leitura no filme, que só tive ao sair da sala conversar com algumas jornalistas sobre o filme. No podcast que gravei sobre, falamos com um dessas jornalistas que revelou muitas mulheres tiveram a visão de que o filme é misógino, algo que discordo plenamente. Concordo 100% com você que o filme faz uma crítica à forma como muitos homens lidam com suas companheiras. Isso é algo de David Lynch usa muito bem em Twin Peaks por exemplo.
      Obrigado pelo comentário e espero vê-la novamente aqui no blog ou mesmo no Canal no Youtube.

      Abraço

  21. Filme extremamente provocador em relação ao que se passa na mente de uma mulher que está em sofrimento e começa a enxergar sua dependência. Pra mim o sangue no centro da casa que brota no meio do quarto é o que tem de mais íntimo dela. São suas dores, suas angústias e que quando ela sente que ele a quer ela tapa e coloca para debaixo do tapete! O sangue até estanca superficialmente. Tive a confirmação de que a casa era ela quando o buraco no quarto me parece o formato de uma vagina sangrando, no interior da casa há sangue, brota sangue pelas paredes. Voltando às angústias. Me parece que esse sofrimento sessa superficialmente no período de gestação. E ele passa por cima de tudo que é importante pra ela quando está prestes a dar a luz. Passa literalmente por cima dela com seus interesses e sua egolatria. Sua incapacidade de ver o que é importante pra ela. Ele em alguns diálogos com ela diz que ele quer todas aquelas pessoas lá. Penso até que ponto a obsessão dela não o sufoca. Mas ele alimenta. Ele precisa dela. Para não se sentir menor. Pois sabe que é. Também me veio a ideia de que as guerras, o fanatismo, a destruição, a violência e o desrespeito, e todas as representações violentas do mundo é o que também se passa na mente de uma mulher quanto está parindo. É p que tem dentro dela também. As sombras humanas. Os medos, os temores, as inseguranças. Ela está gerando um filho pra viver essa loucura. Está tudo na mente dela. Afinal ela é a casa. Mais uma vez o que brotou de mim ao ver o filme.

  22. Pensando em ser uma metáfora bíblica, fiquei pensando o que poderia ser a falta de interesse dele nela? Tanto que eles só tem uma relação quando ela expõe que se sente indesejada.

    Aquele esqueiro do que viria a ser Adão retorna várias vezes ao foco do filme, tanto que ele é o propulsor da explosão. Seria o esqueiro o resquício daquele (homens) que deu início aquilo tudo também ser motivo do seu fim?

    Ademais, ótima crítica e comentários.

  23. Primeiramente quero agradecer ao Fernando pelo texto. E pedir desculpas caso meu comentário já tenha sido feito, pois não consegui ler todas as respostas.

    Quero apresentar o significado visto por mim em uma comparação direta a bíblia.

    Sala do Poeta: É o paraíso, após a perda de confiança entre Adão e Eva, Deus fecha o paraíso e torna ele um lugar proibido, com isso ele fere as próprias mãos e mancha o solo com o Pecado, então dessa forma a Casa é a Terra Prometida, lugar onde todos os povos podem buscar a Deus, sendo assim Adão e Eva retornam para habitar junto com seus descendentes.
    Mãe: Ela é a IGREJA,quando eu digo igreja não quero dizer uma determinada religião, mas ela é o caminho que apresenta Jesus como o salvador do mundo, prova disso que antes do mesmo existir ela dependia de uma limpeza interna, relatada com aquele pó amarelo, mostrando que a Igreja sempre existiu, mas não tinha seu símbolo de salvação e precisava de outros meios para se purificar. Ela permite que todos se aproximem de Deus e vivam de forma igual, mas ela coloca regras para continuar habitando na sua “Terra Santa”, podemos pensar nisso como as doutrinas criadas. A igreja busca não a morte, mas expulsar os “impuros daquele lugar sagrado, para que o mesmo tenha se mantido controlado.
    Outro ponto que faz acreditar que ela é a igreja, pois a mesma permite que mudanças ocorram, mesmo não concordando, quando acontece da bebida e outras coisas permitidas por Deus.

    A Editora: Foi aquele que eu mais demorei para encontrar um ponto. mas ela é o Diabo, conhece a Deus como ninguém e quer usar seu poder para que prazeres carnais sejam realizados, busca corromper a igreja para que ela concorde com essa mudança divina, busca acabar com ela juntos com os opositores através da morte.

    A igreja percebe que a sociedade não possui salvação e acredita que tudo deve recomeçar, que Deus deve limpar a Terra e deixar tudo em perfeito estado como era no princípio, para isso ela deixa seu maior símbolo, o fruto proibido, ponto chave para escolha do livre arbítrio e assim tudo se inicia novamente.

    Adorei o filme, faz refletir em tudo que acontece em nosso planeta.

  24. Bom… acredito que a grande sacada do filme é recontar a historia da biblia com metáforas e nos levar a interpretação de deus que as religiões pregam (ou como mesmo filme diz: o poeta) que leva ao fanatismo e a destruição do planeta inconsequentemente sem preocupar com a “mãe natureza” que é a unica coisa que deveriamos respeitar e que realmente dependemos. Tudo isso (doutrinas religiosas) nos leva a destruição e ao fim dos tempos – e é isso que deus quer? Fica a reflexão, já que as escrituras sagradas pregam isso…

      1. Bom,li bastante sobre tudo, não sou tão culto como a maioria que aqui comentou, esclareci varais dúvidas que eu tinha, mas uma ainda me intriga, até onde li nos comentários ninguém se manifestou sobre isso, mas pergunto:
        O buraco no quarto descoberto que leva até o porão e a porta escondida, trata-se do inferno?
        Perdoem minha ignorância.

        1. É uma leitura válida Maurício. Alguns argumentos que o apocalipse vem do inferno que queima a tudo, então faz sentido. Até por que o próprio “deus” meio que titubeia para entrar naquele lugar.

          obrigado pelo comentário e seja bem-vindo ao bonde da discussão saudável…ah e todos nós somos ignorantes…todos kkkk

          1. Obrigado a vc Fernando.
            Acredito que o que torna esse filme interessante e ao mesmo tempo decepcionante, são as discussões posteriores e os pontos de vista apresentados kkkkkkk.
            Abraço.

  25. Bem legal os esclarecimentos, mas eu percebi mais analogias bíblicas…
    Por exemplo, quando invadem a casa e roubam o pão que a Mae tinha preparado pro jantar, percebi analogia a multiplicação de pães, depois eles comecam a idolatrar ELE, e sem querer ele suja a testa de uma pessoa com uma tinta, ai alguém fala “ele me marcou”, me lembrou o anticristo e o sinal da besta, depois disso todos começam a marcar a testa. A destruição da casa me fez lembrar da “grande tribulação” que e retratada na bíblia justamente no governo do anticristo. E logo depois veio o nascimento do bb, que eu nao sabia o que significava mas acabei de ler que era uma analogia ao nascimento de jesus, mas eu nao pensei nisso na hora pq logo apos o nascimento teve aquele silencio, que eu achava que era relacionado ao grande milenio, que acontece na biblia logo depois de 7 anos de tribulação, e o fogo eu achei que era alusão à condenação final, que e o inferno.

    1. Ahhh lembrei, aquele monte de gente que aparece com lanterna indo para casa dele eu fiz alusao aos mortos que serão ressuscitados depois da vinda de jesus.

  26. Ótima resenha.
    Adorei os comentários mas ainda estou intrigado com o pó amarelo.
    Detalhe que não foi comentado aqui, a capa do filme mostra claramente a Jennifer como uma imagem da Virgem Maria.

  27. Parabéns a todos pelas variantes intelectuais e “viagens” emocionais!!E em especial, meu agradecimento com louvor, a Fernando, pela sensibilidade, eloquência, educação e inteligência emocional ao conduzir nossas falas!!

  28. Acredito que não houve um comentário sobre isso, mas percebi que todas as vezes que a Mulher saia da casa Ele aparecia e não deixava ela sair. Isso me fez lembrar bastante relacionamentos abusivos.

  29. Comecei a assistir, esperando um bom filme como sempre com a atriz do momento. Não aguentei, e caí aqui, para saber do que se tratava. Foi bom a leitura do artigo, pois se decidir assistir todo o filme, não vou ficar na expectativa de assistir algo novo que divirta, some, agregue valor ou algo parecido, mas um filme como tantos outros sobre … sei lá… tormentos?

  30. Gostaria de entender, dentre outros detalhes, porque ela se incomoda com aquele aquecedor no porão aceso. brilhando, por duas vezes ela olha pra ele e ele está aceso e brilhando, logo acontece alguma coisa que tira a atenção dela sobre isso…o sapo/rã também achei meio sem sentido. Quando abel morre o sangue dele mancha e apodrece o chão da casa, depois ele é absorvido e escorre para o porão, estoura a lâmpada e depois escorre, indicando uma porta escondida, onde a mãe se assusta com a aparição de um sapo, e depois ela vê o subterrâneo, algo dentro dele…Essa cena toda pra mim continua um mistério…

  31. Existem severas falhas na análise. Levando pelo lado bíblico: No começo existia Deus e a Terra (ELE e Mother) e tudo era perfeito. Os poemas (processo de criação) acabaram e Deus queria mais, e isso trouxe Adão (Homem) pra casa. Adão n estava bem, então Deus arrancou uma costela (ferimento na cena do banheiro) e criou Eva (Mulher) como companhia. Terra se sentiu incomodada com o efeito que isso teria e então Adão e Eva desobedecem Deus e destroem o cristal (comem a maçã), provocando sua ira. Terra tenta se livrar deles mas eles permanecem a ainda trazem os filhos, Caim e Abel, pra casa (lembrem-se que a Mother e a casa em si são o mesmo personagem, Mother é só a expressão física, o sentimento da Mãe-natureza em si). Caim mata Abel por inveja, gerando a primeira grande ferida na casa, o primeiro pecado, mas só a Terra presencia. Caim foge e Adão e Eva povoam o planeta (casa). As atitudes da humanidade levam ao dilúvio (cano estoura com a queda da pia e molha a casa), a humanidade é extinta (banida da casa). Deus volta a criar (poemas), a Terra sendo sua musa inspiradora. A humanidade volta a casa, povoa todos os cantos da casa, gera brigas, caos, cutucando a ferida até abrir um buraco (pecado). Deus abandona todo mundo, mas volta pra tentar salvar Terra. O messias (filho) nasce, a Terra quer esconder, mas Deus mostra pra humanidade, e a humanidade o destrói, os fanáticos o devoram (religião). eMother se rebla, até mesmo contra Deus, e se destrói, levando todo mundo consigo. Mas o amor de Deus é infinito, e Mother doa seu coração, a casa é reconstruída, num ciclo sem fim de criação e destruição.

  32. Boa noite! Ou bom dia rsrs..

    Vi o filme e fiquei perdidaço! A ponto de afirmar que havia perdido 2 horas do meu tempo. Mas bastou eu pesquisar no Google e encontrar seu artigo, que me deparei com este enorme acervo de ideias e opiniões! Fantástico ver como cada um tem sua visão, e nenhuma delas significa mais ou menos do que as outras! Li todos os comentários e a única coisa que ainda me indaga, é q questão do pó amarelo! Ainda não me convenço! rs.. Parabéns pelo site Fernando, adorei! Abraços!

      1. O pó amarelo é láudano, um remédio da era vitoriana que era à base de ópio e açafrão, usada para acalmar e tratar dores. Ela usa o mesmo pó na parede.

  33. – Sobre a alegoria de Jesus Cristo, as pessoas comendo a criança representa a óstia. “O corpo e sangue do Messias”, com o qual todos comungam, porém a humanidade ainda continuou não ouvindo o Evangelho, o que esvazia totalmente esse ato simbólico, pois ainda continuaram destruindo a casa.
    – Percebe-se também o porquê da Mãe não querer sair de casa ou não sair quando invadem a casa dela, além de seu comportamento sempre pacífico, pois ela não pode interferir em nada (enquanto isso eu pensava em vazar desse lugar o momento todo hauhsuahushuah).
    – Sobre o pó amarelo, acho que ninguém prestou atenção na dica “Charles Dickens”. Esse autor sempre se referiu ao enxofre – que é um pó amarelo – nas suas obras.
    Era utilizado extensivamente em crianças e adultos na era vitoriana, principalmente de orfanatos. Não servia pra nada (mas eles pensavam que servia), só pra minar o apetite e dar tonturas e desmaios (porque se comia menos).
    Nas casas, era utilizado como vapores para purificar ambientes doentes. Era tomado por via oral em uma mistura conhecida como “brimstone and treacle” – ou “enxofre e melaço” e ficou mais conhecida pela obra “Nicholas Nickleby”, quando a senhora Squeers colocava melaço com enxofre em uma colher de pau e “enfiava guela abaixo” das crianças no Dotheboys Hall. Em um dos capítulos ela diz: “[…]não pense que a gente gasta absurdos com enxofre e açúcar somente para purificar o sangue desses meninos[…]”; em outro trecho ela diz “[…]eles tomam enxofre com mel porque se não tomarem isso ou outro remédio irão ficar sempre doentes e dar um mundo de problemas; além de que isso acaba com seus apetites, o que nos faz gastar menos com café da manhã e jantar”.
    – Uma outra interpretação que dou para o enxofre, pegando a vibe ambientalista do diretor, é sua ampla utilização atual como fertilizante, na forma de ácido sulfúrico na produção de baterias de automóveis e seus gases sendo importantíssimos para a poluição ambiental. É o segundo composto líquido mais produzido no mundo, perdendo apenas para a água. Sua importância industrial é tão grande que sua produção serve como índice para medir o desenvolvimento dos países. Assim, a era vitoriana e Charles Dickens podem ser uma “ponte” para puxar esses temas (ela vive tomando esse remédio, porém não melhora nada, continuando sentindo tonturas o tempo todo, pois é um de seus efeitos). Além do mais, foi justamente na era vitoriana que a extração de enxofre e produção de ácido sulfúrico começou a aumentar drasticamente.
    – Abaixo selecionei alguns sites pra vocês darem uma olhada caso quiserem algumas fontes:
    http://www.alamy.com/stock-photo-brimstone-and-treacle-day-at-dotheboys-hall-from-charles-dickens-29395282.html (Uma imagem baseada na famosa cena da senhora Squeers no “dia do enxofre e melaço no Dotheboys Hall”)
    http://www.victorianlondon.org/books/nickleby-08.htm (o capítulo do livro “Nicholas Nickelby” que fala sobre o enxofre)
    http://atlanticeurope.com/Elements/Sulphur.html (um site muito bacana que descreve tudo sobre o enxofre)
    https://paginas.fe.up.pt/~projfeup/cd_2012_13/files/REL_Q1Q3_01.PDF (um trabalho de mestrado mostrando o enxofre como importante indicador de desenvolvimento industrial e econômico dos países)

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