LIGA DA JUSTIÇA (Justice League, 2017) | Crítica

Depois de apanhar muito com “Batman Vs Superman” e “Esquadrão Suicida”, ambos lançados em 2016, a DC/Warner decidiu rever seus planos para o cinema. Essa mudança parece ter começado com o filme da “Mulher Maravilha”, e se confirmado com o mais recente filme do estúdio, “Liga da Justiça“. No longa temos um abatido Bruce Wayne / Batman (Ben Affleck) juntando pessoas com superpoderes para lutar contra uma ameaça alienígena, ao mesmo tempo que lida com a morte do Supeman (Henry Cavill) e a lacuna deixada por este.

O filme começa de forma ágil e sem perder muito tempo, já apresenta a ameaça principal e contextualiza o que acontecera com Metrópoles e Gotham após a morte do Superman em “BvS”. O longa até tenta expandir essa consequência ao mundo todo, mas opta por ocultar essas informações, o que é bem frustrante, pois seria muito interessante saber como o mundo está reagindo a morte do herói máximo. Nesse sentido, é perceptível que houve um corte brusco na duração do filme, que conta com apenas 120 minutos. Mesmo assim, esse pequeno momento de introdução mostra bem os efeitos da morte do Superman em um vídeo-clipe à la “Watchmen: O Filme” de 2009, tanto pela estética quanto pela temática. No clipe, vemos algumas cenas cuidadosamente esculpidas para resgatar o Superman clássico e heroico dos quadrinhos, como o momento onde é mostrada uma capa de jornal saudando os recentes heróis falecidos. Ao lado da foto do Superman temos David Bowie e Prince. É de arrepiar.

E ainda falando desta abertura, Snyder critica o atual momento que vive os Estados Unidos em uma cena onde vemos um rapaz branco e careca, com expressão de raiva e partindo para cima de uma comerciante com um lenço na cabeça. Provavelmente uma reflexão crítica aos discursos antissemitistas da chamada “alt-right” que cresce no mundo todo. Em outro momento Snyder mostra um morador de rua com uma placa e o dizeres “I tried” (eu tentei). Essa crítica que Snyder faz ao abandono vivido por diversas famílias é novamente levantado por Arthur Curry / Aquaman (Jason Momoa) quando questionado por que ele ajuda aquelas pessoas em uma região gélida, possivelmente no Ártico. A resposta reflete o espírito heroico dos personagens: “se eu não fizer, ninguém mais vai fazer”.

A partir daí, o filme começa a apresentar os demais personagens. O roteiro não perde tempo nessa apresentação e resume bem o background de cada um do heróis em poucos palavras, repetindo o que a Marvel fizera por exemplo, ao apresentar o Peter Parker / Homem-Aranha em “Capitão América: Guerra Civil” de 2016. Esse tipo apresentação, para esse tipo de filme de equipe é interessante pois permite que projetos solos desenvolva aquilo não foi mostrado. Ao mesmo tempo, nos fornece as informações necessárias para que compreendamos seus poderes, contextualizando suas ações.

O primeiro a ser apresentado é o Aquaman, que surge como um bad-boy dos mares. Funciona bem e diverte com seu tom debochado e arrogante, ainda que não tenha mostrado qual o seu real poder. Depois tivemos Barry Allen / Flash, que alias, não é citado como Flash em momento algum, mas é o personagem mais bem desenvolvido dentre os 3 novos heróis. Claramente o alívio cômico, suas piadas geralmente funcionam e as cenas com o personagem em ação são as melhores do filme. Já a grande decepção foi o Cyborgue. Melhor dizendo, alguém realmente esperava algo dele? A apresentação de Victor Stone / Cyborgue (Ray Fischer) é muita boa, mostrando ele rejeitando seus poderes, se vendo como um monstro retalhado. É algo muito próximo do que vimos em “Robocop” de 2014, dirigido por José Padilha. Entretanto, o grande problema é que o filme abandona completamente isso, como tivesse um botão de reset nessa mecânica do Cyborgue. Isso sem falar no péssimo CGI que resulta na artificialização e no endurecimento dos seus movimentos.

Ainda o comportamento de alguns heróis, as mudanças drásticas que roteiro propõem são um dos grandes problemas de “Liga da Justiça“. Personagens com uma determinada posição acerca de um assunto, rapidamente mudam completamente sua forma de pensar, movido apenas por belos discursos. É bem possível que isso seja causado pela pressa que o roteiro tem de encerrar logo a história. É nítido novamente, que o filme foi picotado, tanto que há várias cenas do trailer que foram cortadas do filme, algo que já vimos em “Batman Vs Superman” de 2016. As resoluções são apressadas, não há qualquer senso de urgência, mesmo o vilão ameaçando destruir o mundo (sim, ele quer destruir o mundo) não sentimos em momento algum que ele irá realmente fazer isso.

É preciso dizer, que tudo que envolve esse vilão (exceto as lutas, mas não por méritos dele) é mal feito. O CGI do personagem, mesmo tendo sido desenvolvida em parceria com a Weta Studios (Trilogia Senhor do Anéis), parece coisa de trailer de jogo para XBOX. Mas não é só o visual do Lobo da Estepe que é ruim, o desenvolvimento (que nem existe) é pobre. Ele é só mais um alienígena que surge do nada para destruir a Terra. Mais genérico que isso é impossível.

Embora a direção do Zack Snyder seja muito boa, com movimento de câmera que mostram as consequências dos golpes que os personagens sofrem. Não há aquele preguiçoso picote de quando o herói leva um soco, corta e ele voa na parede, depois corta e já está no chão. Em “Liga da Justiça“, Snyder mostra por exemplo, o Aquaman levando um soco, voando contra a parede e depois caindo no chão, tudo sem cortes aparentes. É uma direção muito bem executada, mas é muito comprometida pela fraca fotografia do filme, que não consegue encontrar a paleta de cores ideal. Algumas cenas tem um CGI tão duro que recorta a silhueta dos personagens denunciando o mal uso do recurso digital.

Já a trilha sonora, apesar de não ser memorável, ela presta homenagens interessantes às animações clássicas da DC e até ao saudoso tema de Jonh Williams para “Supeman“, de 1978. Esse reconhecimento ao passado, é a forma que a DC/Warner encontrou para resgatar a aura heroica de seus personagens. Em “Liga da Justiça” finalmente temos o Superman que tanto esperávamos. É um Superman poderoso, dócil, altruísta, que não é posto como um deus e sim como um arauto de bondade e esperança. Hoje conseguimos ver as cores de seu uniforme, conseguimos enxergar um pessoa por trás daqueles músculos todos (apenas de visivelmente mais magro, ainda sim enorme). É o herói na sua essência.

O tom leve e jocoso é o charme do filme. Claramente influenciado pela presença de Joss Whedon na produção, “Liga da Justiça” acerta o tom na leveza, ainda que algumas piadas não funcionem tão bem, a grande maioria arranca espontâneas risadas do público. A interação entre os seis heróis é divertida e quando estão em ação, é notável que o grupo forma uma verdadeira equipe de pessoas que buscam uma unidade amistosa, tal qual, vemos nos quadrinhos. Em contrapartida, tira bastante da dramaticidade que Zack Snyder tanto preza em seus longas, o que divide o filme em “isso é coisa do Whedon” e “isso é coisa do Snyder”.

Liga da Justiça” entrega uma boa e descompromissada diversão. Escorrega feio em seu visual e na concepção de seu vilão, mas acerta no tom leve e espirituoso de seus heróis. Uma retratação fiel do espírito dos quadrinhos, com ação competente e bem humorada. É bem provável que tenhamos uma versão com 30 minutos de conteúdo cortado, o que mostra outra vez uma estratégia marqueteira da Warner em detrimento do artístico. Uma pena.


Direção: Zack Snyder
Roteiro: Chris Terrio, Joss Whedon
Fotografia: Michael Seresin
Trilha Sonora: Danny Elfman
Ano: 2017
País: Estados Unidos
Gênero: Aventura / Ação
Classificação: 14 anos
Duração: 120 min. / cor
Título Original: Justice League
Elenco: Ben Affleck, Gal Gadot, Jason Momoa, Ray Fischer, Ezra Miller.

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