“A Forma da Água”: Metalinguagem e Amor ao Cinema

Guillermo Del Toro é um daqueles diretores que vivenciam plenamente suas obras, fazendo delas uma extensão de sua vida. Toda filmografia do cineasta é um reflexão de suas memórias, anseios e angustias, e com seu mais novo trabalho não é diferente. Em A Forma da Água, Del Toro abre o coração para contar a história de amor entre um monstro e uma faxineira de um grande laboratório. Como acontece em todos os filmes do diretor, a figura do monstro representa mais do que aquilo que vemos em tela, se tornando uma metáfora para diversos temas presentes em suas obras.

É possível que em A Forma da Água, essa metáfora seja própria vida de Del Toro, que sofrera muito na sua infância devido a sua, segundo o próprio diretor, “aparência esquisita”. Como refugo, o diretor criava monstros e universos fantásticos que eram e ainda são suas companhias mais fiéis. Esse fascínio por criaturas monstruosas é refletida na personagem de Sally Hawkins, Elisa, a faxineira que se apaixona pelo monstro, tendo nele um refugo de uma realidade que a oprime, algo muito semelhante ao que acontece com Ofélia no filme O Labirinto do Fauno, de 2006. Ademais, assim como Del Toro se sentia “esquisito” na sua realidade, Elisa, por ser muda, tem seu grau de esquisitice, o que a faz desejar essa fuga da realidade.

O filme explora perfeitamente essa busca de uma nova realidade ao se utilizar da metalinguagem durante toda a projeção, a começar pelo ambiente onde Elisa e seu amigo Giles, interpretado por Richard Jenkins, vivem. Eles moram em cima de uma sala de cinema de rua, que mostra que a escolha de utilizar os anos 60 como período para o filme é um acerto narrativo e metafórico, pois é a época em que o próprio diretor nascera. Assim como Del Toro, Elisa via nos filmes uma realidade acolhedora, que é perfeitamente retratada no momento que ela utiliza-se da sua imaginação para “entrar” no filme e cantar livremente seus sentimentos. Essencialmente o que o diretor faz desde seu primeiro longa, Cronos de 1993.

A metalinguagem também está presente no uso da trilha sonora, como no momento em que o monstro e Elisa começam a criar um vínculo. Sabendo que ela sendo muda e ele não sendo capaz de se comunicar, nem gestualmente e tampouco verbalmente, Elisa utiliza-se de uma vitrola para tocar uma canção e se comunicar com o monstro, numa clara referência ao cinema mudo que se comunica sem palavras. Inclusive, a própria Sally Hawkins recorreu aos clássicos do cinema para compor sua personagem, estudando grandes artistas do cinema mudo como  Charles Chaplin, Stan Laurel, Oliver Hardy e Buster Keaton. Aliás, o que o filme faz de melhor é declarar amor ao cinema, seja ele clássico ou contemporâneo. Há diversas referências aos filmes da época como números de sapateados e canções de musicais, além de claro, cenas exibidas tanto no cinema quanto na TV da sala de Elisa.

Entretanto, engana-se quem pensa que A Forma da Água é apenas uma bajulação do cinema clássico tal como foi La La Land, de 2016 (fui muito duro?). Guillermo Del Toro se supera em um brilhante trabalho de direção. A elegância com que o diretor transita entre os ambientes com belos planos-sequências, tornam a narrativa agradável, quase poética, mesmo nos momentos onde o filme perde um pouco de fôlego. E ainda que haja um momento ou outro de lentidão, ela nunca é extensa demais a ponto de cansar o espectador. Além disso, a trilha sonora de Alexandre Desplat que também presta um bela homenagem aos elegantes scores dos filmes clássicos dos anos 60, mantém o clima onírico, apesar do horror que como sempre acontece nos filmes do Del Toro, se mesclando ao belo.

Esse talvez seja um dos maiores méritos do filme. Saber mesclar o belo e o horrível em uma só obra. Ao mesmo tempo que A Forma da Água é uma história de amor, cria-se um paralelo com a monstruosidade do ser humano diante do diferente. O filme começa com uma narração em voice-over apresentando o conto e concluindo-a dizendo que um monstro quase arruinou essa história de amor. No entanto, o “monstro” referido não se trata do personagem vivido brilhante por Doug Jones, e sim do Capitão Richard Strickland vivido por Michael Shannon, que faz várias referências ao filme O Monstro da Lagoa Negra, de 1954, ao dizer que o monstro de A Forma da Água viera da floresta amazônica, tal qual o monstro do filme clássico. Del Toro deixa bem claro, até de forma explícita demais, a podridão do Capitão Strickland, que aos poucos vai encarnando o real monstro da história, em mais uma alusão ao Labirinto do Fauno.

É possível que esse excesso de referências e homenagens tenham minado um pouco a criatividade do diretor que pouco se arrisca na narrativa. O filme toma poucos riscos e navega tranquilamente naquilo que Del Toro sabe fazer de melhor – criar ricos universos fantásticos. As mais belas cenas do filme são as que a fantasia toma a tela pintando um exuberante quadro que explora com maestria todo o fabuloso design de produção oriundo da fértil imaginação de seu criador.

Del Toro sempre foi um diretor muito inventivo e apaixonado pelo que faz, e isso fica muito evidente em todos os seus filmes, mas o que ele faz em A Forma da Água é gritar em cada cena seu amor pelo cinema e claro, pelos monstros que o acompanham desde sempre. Metalinguístico na essência, o filme é uma declaração de amor à sétima arte.



Apaixonado por música tanto quanto por cinema, comecei a minha cinefilia com minha mãe indo ao cinema para ver os filmes dos Trapalhões e do Jean-Claude Van Damme. A paixão veio forte quando assisti a Jurassic Park, com toda aquela esplendor visual mesclado com a trilha de Johh Williams. Hoje com a ajuda do Spotify detenho uma playlist com todas as trilhas sonoras que me marcaram e me fazem amar o cinema cada dia mais. Minha trilha preferida? Do filme Uma Lição de Amor de 2011.


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