DUNKIRK (2016) | Crítica

Christopher Nolan está de volta para dividir opiniões quanto a sua genialidade ou prepotência, e desta vez com um filme de guerra, ou seria um filme sobre a guerra? Discutiremos isso durante o texto.

DUNKIRK narra eventos ocorridos na cidade francesa de Dunquerque no ano de 1940 durante ataque alemão ao país que deixou os soldados belgas, britânicos e franceses encurralados à espera de um milagre que os resgatassem. Esse resgate é conhecido como um dos atos recentes mais milagrosos ocorridos em uma guerra por conseguir o resgate de mais de 300 mil soldados que se encontravam já sem esperanças.

O filme já começa frenético, sem muita contextualização – nem histórica e nem geográfica. Há apenas um letreiro inicial dando algumas informações que são poucas mas suficientes para entendermos o que está acontecendo. O competente uso de câmera na mão realça a ação intensa que é acompanhada de uma trilha sonora pulsante do compositor e já costumeiro nas obras do Nolan, Hans Zimmer. Esse inicio intenso se mantem o filme todo, dando apenas pequenos momentos de respiro na intensidade, ainda que a tensão proposta pela trilha de Hans Zimmer ainda esteja lá de forma onipresente.

Nolan utiliza-se de uma narrativa não linear dividida em 3 momentos, sendo o primeiro intitulado “MOLE” referindo-se ao porto onde os soldados se protegiam, e que abrange um período de 1 semana, “SEA” referindo-se a batalhas navais focadas no resgate dos soldados abrange um período de 1 dia, e por fim “SKY” que logicamente corresponde as batalhas aéreas durante um período de 1 hora.

Essa montagem de eventos que se passam em momentos distintos pode causar uma certa confusão no publico, mas assim que identificamos todos os personagens e seus objetivos essa confusão se dissipa e o filme flui, alternando entre os momentos de forma muito inteligente, com raccords precisos, gerando interesses específicos em cada um deles. Brilhantemente todos esses eventos se cruzam no final do filme dando total coerência a narrativa apresentada.

No “MOLE” que é o plano mais terrestre temos um grupo de soldados que constantemente bombardeados pelos alemães tentam chegar ao porto para serem resgatados. Já no “SEA” temos o núcleo civil composto por Dawson (Mark Rylance), seu filho Peter (Tom Glynn-Carney) e um jovem corajoso George (Barry Keoghan) que juntos navegam até Dunquerque para ajudar no resgate dos soldados. Já no “SKY” temos uma ação frenética conduzida por Tom Hardy que praticamento não tem fala no filme mas como piloto tem papel fundamental na proteção dos soldados em terra e no mar.

DUNKIRK não se trata exatamente de um filme de guerra e sim de um filme de sobrevivência. Compara-lo à filmes como ALÉM DA LINHA VERMELHA (1998) de Terrence Malick, PLATOON (1986) de Oliver Stone ou mesmo O RESGATE DO SOLDADO RYAN (1998) de Steven Spielberg seria até injusto haja visto serem temáticas diferentes, ainda que o contexto seja a guerra, mas uma coisa Nolan faz aqui que pode nos remeter a esses filmes. A humanidade na Guerra! E isso é algo que sempre reclamei muito nos filmes no Nolan – a maneira fria e distante com o que o diretor trata de questões humanas. Não que DURKINK tenha uma alta carga sentimental, mas pela primeira vez eu vi Nolan atingir me emocional com uma cena e utilizando-se de apenas 4 frases! Outro acerto é não expor os “vilões” do filme, pois não se trata de herói versus vilão. Eram alemães mas poderiam ser qualquer outra nação numa guerra, e o efeito dela seria o mesmo – morte, desolação, medo e dor.

Falando em palavras, isso é algo que Christopher Nolan ignora completamente nesse filme. Há pouquíssimos diálogos, que são substituídos por gestos, olhares ou pela trilha sonora que nunca se ausenta, e ai que está o maior problema do filme. E não é nem a trilha sonora em si, pois ela é muito boa, mas o uso intermitente dela. Não há folga de respiro ou reflexão de silêncio, e se o argumento for de que era para contribuir com a imersão do publico, não seria nada coerente, afinal, na guerra não se ouve trilha sonora. Há momentos ali onde o silêncio era tão necessário quanto a trilha. Por exemplo, há um momento onde os jovens soldados observam o mar e a fumaça escura que pairava e ainda os ameaçava após aterrorizantes bombardeios. Nesses momentos, o silêncio nos concentraria na dor e no medo daqueles jovens diante daquela batalha que parecia perdida, mas a trilha não nos deixa ter esse momento e continua presente tentando nos forçar a uma sensação que já viria pelo tratamento imagético da cena.

A ausência de silêncio impede uma melhor reflexão dos atos da guerra.

Mas se por um lado a trilha sonora abusa, inclusive na altura que literalmente me causou dores de cabeça, num claro problema de mixagem (a não ser que a proposta fosse causar esse efeito) o design de som é um espetáculo. Há uma interessante fusão da trilha sonora com sons de relógio que aumentam a tensão e a urgência das cenas, assim como sons abstratos de máquinas férreas (rima que se concluí no final) e sons diegéticos que se fundem a trilha sonora com perfeição, criando uma dimensionalidade que traz significados àqueles sons que tomam o lugar da palavra falada. Afinal numa batalha, palavra é o que menos se escuta.

Nolan que contar uma história pela imagem e para isso conta com uma cinematografia exuberante e uma direção perfeita. A paleta de cores cinzas dão peso e criam lindos contrastes quando expostos ao laranja e vermelho das explosões. E o uso da tecnologia IMAX preenche toda a tela com imagens poderosas que perderiam efeito em uma tela menor. A composição das cenas (mis-en-scène) são sempre pensadas para mostrar a grandiosidade do lugar ao mesmo tempo mostrar que não tem para onde eles fugirem, e quando Nolan abre o plano e vemos aquelas centenas de soldados, temos a real dimensão do que se trata aquele batalha e a escala de grandeza alcança níveis altíssimos.

O uso de centenas de figurantes deixam a escala de grandiosidade ainda mais assustadora.

DUNKIRK é um filme concebido para ser grande enorme gigante, e nesse tipo de projeto não é raro o diretor perder a mão diante de tanta pretensão, mas Nolan controla muito bem os elementos grandiosos do filme, foca nossa atenção em heróis improváveis mas ainda comete alguns erros que acompanham sua carreira, em especial após sua obra-prima O CAVALEIRO DA TREVAS (2008). Nolan ainda tem dificuldades em fazer com que nos interessemos por seus personagens, e aqui vai ao extremo disso pois apenas o trio de civis consegue extrair alguma emoção em uma linda cena. A história nos interessa, os personagens não, e isso faz falta em alguns momentos.

A verdade é que DUNKIRK confirma que Christopher Nolan é um dos melhores diretores de sua geração. Ambicioso, pretensioso e muito competente, Nolan declara amor ao cinema puro, com o menos de intervenções digitais possíveis, e um poder imagético que obriga o público a esforçar-se em ver seus filmes no cinema e na melhor sala possível pois isso fará diferença na sua experiência com o filme.

Assistir DUNKIRK em casa seria como tomar um “La Moneda Reserva Malbec” (um dos melhores vinhos do mundo) em um copo de plástico acompanhado de salgadinho barato. O produto será o mesmo mas a experiência não.


FICHA TÉCNICA
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Fotografia: Hoyte Van Hoytema
Trilha Sonora: Hans Zimmer
Ano: 2017
País: Inglaterra / França
Gênero: Drama / Guerra
Classificação: 14 anos
Duração: 106 min. / cor
Título Original: Dunkirk
Elenco: Fionn Whitehead, Damien Bonnard, Aneurin Barnard.

 

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