DEATH NOTE (2017) | Adaptações Precisam ser Fiéis ao Original?

Finalmente chega à Netflix a tão aguardada adaptação do anime japonês, DEATH NOTE, que por sua vez fora adaptado do mangá homônimo de 2003 escrito por Tsugumi Ohba. Ambos, anime e mangá, tiveram sucesso absoluto, tanto no Japão quanto aqui no Brasil, onde fãs ficaram fascinados pela história de Light Yagami, um jovem colegial que encontra um caderno com poderes de tirar a vida de quem tem seu nome escrito nele, e graças a uma série de regras, seu uso exige inteligência e muita organização.

Mas a DEATH NOTE vai muito além disso. É uma história de investigação cheia de reviravoltas, planos, disputas intelectuais e ainda conta com um dilema de justiça e divindade que torna a obra profunda em suas temáticas e inteligente e sua execução. Portanto, estamos falando aqui de um material muito rico que sem dúvida teria muito potencial de sucesso em sua adaptação para o cinema. Mas é bem provável que você, ilustre leitor e leitora, já saiba que a adaptação de DEATH NOTE feita pela Netflix foi um total fiasco. E os motivos são diversos: personagens sem qualquer background e unidimensionais, atuações pífias, um roteiro sem qualquer sentido lógico e cheios de furos e conveniências, uma incoerência estrutural da história que não se decide se é para ser cômica, trágica ou aterrorizante. Ainda junte a isso tudo, uma direção preguiçosa que tenta ser jovial criando transições que beiram o infantil e uma fotografia escurecida tentando disfarçar o péssimo CGI do personagem Riuk. Todavia esse texto não tem como objetivo uma análise crítica que aponte as falhas do filme (como se isso fosse  possível), mas sim propor uma reflexão. Até onde uma adaptação precisa ser fiel à obra original?

Toda vez que uma obra adaptada é massacrada pela crítica e especialmente pelo público, esse questionamento vem à tona. Fãs da obra original acusam os realizadores de terem estragado a obra original, de terem desrespeitado ou mesmo de terem violando tal obra.

Veja por exemplo o caso do HOMEM DE AÇO de Zack Snyder. Ao criar um personagem diferente do que costumamos ver nos quadrinhos, o diretor foi duramente criticado por isso, assim como foi criticado (em menor escala é verdade) por criar um BATMAN porradeiro que dá facada no peito de bandido. E se formos falar de WATCHMEN (2009) ai a briga com os fãs do original  vai longe.

Para muitos, uma adaptação precisa ser fiel ao original e ponto. Para outros, pode-se alterar alguns elementos e até personagens, mas o espirito do filme (seja lá o que isso signifique) precisa manter-se intacto. Para esse que vos escreve tudo isso é irrelevante, desde que o filme seja bom. Permitam-me explicar;

A partir do momento que um produtor, estúdio ou artista adquire o direito sobre uma obra, seja ela qual for, ele automaticamente adquire o direito de fazer com ela o que quiser. Pode ser doloroso e decepcionante dizer isso, mas as obras que tanto amamos, não nos pertencem, e sim a quem paga por elas. Logo, é muito natural que quem as adquire queiram dar sua visão pessoal daquela obra. Mas ai você talvez argumente:

“mas quem são eles para mudar um personagem ou uma obra inteira quando o original é tão bom?”

Esse sentimento é normal, mas só acontece quando a mudança é negativa. Veja o exemplo do filme O ILUMINADO (1980) dirigido por Stanley Kubrick e adaptado da obra de Stephen King. Esse talvez seja um dos casos mais emblemáticos de um filme que simplesmente passou por cima da obra original e entregou algo tão bom quanto. E aqui tanto faz se você prefere o livro ou filme. O fato é que o filme não é nada fiel ao livro. Outro caso é o filme V DE VINGANÇA (2005) que foi adaptado da graphic novel escrita por Alan Moore. O filme não altera muito os personagens, mas sim a história e todo o enfoque da obra. Como resultado, temos duas ótimas obras bem distintas um da outra.

Isso mostra que ser fiel ao original ou não é irrelevante quando o filme é bom! Eu prefiro que mudem mesmo, pois assim podemos ter duas obras diferentes e boas. Lembro bem do filme GAROTA EXEMPLAR (2014) dirigido por David Fincher que é uma adaptação do livro homônimo escrito por Gilliam Flynn.  O que chama a atenção nesse caso é que o roteiro do filme foi escrito pela própria autora que sentiu a necessidade de mudar algumas coisas na história para que funcionasse na tela. Gillian Flynn tinha consciência de que  literatura e cinema são mídias diferentes e que nem sempre o que funciona no papel funcionária na tela.

Voltemos para DEATH NOTE. O problema do filme não é a falta de fidelidade ao anime. O problema é que ele é ruim mesmo!

Esse ano ainda teremos uma adaptação que mudará em muitos aspectos a obra original, e estou de THOR: RAGNAROK dirigido por Taika Waititi e espero de verdade que ele seja muito, muito infiel a obra original, por que para o apaixonado por cinema o que mais importa é que o filme seja bom. Só isso que queremos: BONS FILMES!

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