The Post Critica Artecines

A Centelha da Verdade em “The Post – A Guerra Secreta”

Independentemente dos locais de projeção cinematográfica menos disponíveis da atualidade e dos hábitos volúveis dos espectadores não comprometidos com a Sétima Arte, por terem adotado visuais mais “contemporâneos”, o que parece não poder deixar de existir para que o Cinema cumpra sua função primeira e última é a preservação daquela insubstituível sensação de prazer do se estar participando de um evento artístico pensado inicialmente como coletivo, porém que adquire conotações francamente pessoais e individuadas em seu processo de apreciação.

Tal satisfação pode residir tanto na comprovação da seriedade de alguns temas ilustrados com profundidade flagrante como na constatação da hilaridade rasgada de algumas passagens encenadas com abundante irreverência ou de ambas, seriedade e hilaridade, encontradas a coexistir “pacificamente” em uma mesma obra; sendo assim, imprescindível será que “espectadores do bem” de todas as plagas, credos, opções e tamanhos não deixem de cultivar as várias abordagens narrativas encontradas nos filmes, pois sem esta “predisposição hospitaleira à multiplicidade” tal arte se empobrecerá por completo, perdendo o seu ecletismo inigualável.

Por ser Steven Spielberg, há décadas em seguida, um cineasta imediatamente associado a películas de gigantesca aceitação popular e de diferenciada aclamação crítica, há sempre um redobrado alarido a cada novo lançamento assinado por ele; mestre inegavelmente hábil do equilíbrio de todos os elementos que constituem uma obra cinematográfica, suas criações, que são o resultado deste seu amálgama compacto de partes tornadas coerentes e coesas em relação ao todo final pretendido, não dão a impressão, em uma análise algo subjetiva, de carecerem de algo a mais para serem calorosamente recepcionadas; ele é o diretor da obra The Post – A Guerra Secreta (The Post – USA/2017) que tem o seu roteiro assinado por Liz Hannah e Josh Singer.

Assiste-se, aqui, a todos os exasperantes e temerários desdobramentos do impasse que, em 1971, precedeu a publicação, pelo jornal Washington Post, dos documentos ultrassecretos do Pentágono sobre a Guerra do Vietnã; sob o comando de Ben Bradlee (Tom Hanks), o editor, à época, já mui admirado e algo contestado, os jornalistas respeitabilíssimos do, até então, não tão expressivo periódico irão se envolver “de corpo e alma” na incontornável classificação cronológica da extensa papelada, conseguida através de Daniel Elsberg (Matthew Rhys), analista do governo, “fonte” mais do que fidedigna.

Por acreditar piamente que sua nação tinha que ser informada sobre as barbaridades ocorridas no país do Sudeste Asiático no decorrer de um longo e revoltante período que foi de 1959 a 1975 e que vitimou perto de 58.000 jovens americanos, informações horripilantes estas manipuladas por três de seus eleitos presidentes  (Kennedy, Lyndon Johnson e Nixon), Daniel já havia “cedido” ao New York Times o tal estudo confidencial de 14.000 páginas, encomendado por Robert McNamara, o Secretário de Defesa de Lyndon Johnson, em 1967; contudo, com o New York Times perdendo na Justiça o direito de continuar divulgando os “classified” relatórios, haverá a publicação dos ainda extensos documentos restantes pelo Post, colocando o jornal na liderança da batalha contra o totalitário controle do governo sobre matérias de prioridade constitucionalmente garantida.

Spielberg, paralelamente, enfoca os conflitos internos de Katherine Graham (Merryl Streep), herdeira do Post, que apesar de jamais ter que capitanear sua equipe de experientes consultores, remanescente da gestão do marido, tragicamente falecido, terá que rever sua posição de “socialite a presidir firma familiar” e, assim, autorizar e apoiar efetivamente a ação de seus profissionais idôneos, dispostos a conscientizar, de vez, a população sobre os desmandos abomináveis de seus mandantes.



Professor de Inglês há mais de 35 anos e, em meus fins de semana, há mais de 15 anos, venho escrevendo resenhas cinematográficas sobre um filme em cartaz na cidade de São Paulo. Como venho de família de cinéfilos inveterados, filmes de todas as tendências, procedências e dimensões fazem parte de meu cotidiano desde criança; entretanto, como não pertenço à área dos que produzem efetivamente obras para a "telona"ou que as analisam periodicamente para os meios de comunicação, sentia a vontade de conviver mais de perto com os amantes da Sétima Arte.


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