HOUNDS OF LOVE (2016) | Crítica

Recentemente, tanto aqui no Blog quanto lá no Canal, eu falei sobre o filme CORRA! (Get Out, 2016) que utiliza do thriller psicológico para contar uma história profunda sobre um assunto muito relevante que é o racismo. E alguns dias depois de ver essa obra me deparo novamente com um thriller envolto em uma temática relevante e bem construída, chamada HOUNDS OF LOVE mas falarei dessa temática mais adiante no texto.

HOUNDS OF LOVE começa com uma linda cena em slow-motion mostrando um grupo de garotas jogando vôlei no colégio. A câmera começa estática, nos colocando na subjetividade dos casal White que observa atentamente as jovens, mas depois ela movimenta-se horizontalmente numa tomada esteticamente bonita, mas assustadoramente perturbadora, pois percebemos no olhar do casal que algo não correto em suas intenções, o que se concretiza posteriormente pois trata-se de um casal que sequestra jovens colegiais.

O filme acompanha os acontecimentos a partir do sequestro de Vicki, uma jovem com problemas com a mãe devido a recente separação dos pais, e é ai o filme já quebra algumas convenções ao mostrar a guarda da filha dada ao pai, um rico cirurgião que não aceita a separação, o que alimenta o desprezo de Vicki pela que mãe que na visão dela os abandonou.

Há um diálogo logo no início do filme, onde Vicki discute com sua mãe, e ali que se apresenta de cara o tema central do filme. Nessa cena, a mãe tenta explicar para a filha a importância dela ter saído de casa, quando num acesso de ira e rancor Vicki diz de forma agressiva e irônica que “a mãe os abandou para ser uma mulher independente” e a forma como a mãe reage a isso confirma – HOUNDS OF LOVE é um filme sobre relacionamento abusivo!

Fica muito claro que Maggie (a mãe) mesmo gostando do ex-marido, precisava ser livre, algo que enquanto estava casada talvez não fosse possível, e o quando o marido lhe oferece “ajuda” financeira, a mesma recusa furiosamente mostrando que o ex-marido tentava “compra-la” com seu amplo por aquisitivo. Mas Maggie não mais se permitiria ficar amarrada à um cara que a mantinha presa à seu status social de cirurgião rico.

Agora indo para o casal de sequestrador o tema fica ainda mais claro. Evelyn é uma mulher que perderá a guarda de seus filhos após casar-se com Jonh, um cara que no português mais correto se enquadraria na categoria de homem escroto, MUITO ESCROTO!

Jonh manipula Evelyn para que ela obedeça suas ordens, humilhando-a e rebaixando-a sempre que possível como se ele fosse o herói salvador. Em certo momento, Evelyn é questionada sobre o por que ainda conviver com aquela pessoa que tanto lhe causava mal, e a frase que surge (infelizmente comum em casos de relacionamentos abusivos) é que “ela deve a ele a comida na mesa e o teto sobre a cabeça”, e Evelyn realmente acredita nisso, principalmente quando ele faz questão de jogar na sua cara o quão generoso ele é por “salva-la”.

Evelyn_Jonh

 

Vicki, percebendo isso tenta abrir-lhe os olhos, mas Evelyn está sobre domínio físico e psicológico do “macho-alfa” da casa. E a direção do filme trabalha muito bem ao explorar as cenas onde Evelyn sofre com esses abusos com uma câmera afastada, muitas vezes na altura do chão para que observemos aquele abuso de forma inerte, pois como espectadores não podemos entrar na cena para ajuda-la. Eu realmente fiquei angustiado vendo as agressões físicas e verbais sofridas por Evelyn, e me senti impotente como espectador. Méritos da direção!

Este é o apenas o primeiro longa-metragem do jovem Ben Young (perdoem-me o trocadilho) que além da direção também é responsável pelo roteiro do filme. Young acerta em várias escolhas a começar pelo suspense paulatino e sem presa. Não há interesse do filme em elucidar as intenções de cada personagem de forma fácil e didática. Há poucos diálogos no filme, o que exige uma certa atenção aos detalhes como na direção de arte (repare nas fotos), nas trilhas incidentais (repare nas letras das canções) e principalmente na postura corporal e olhares dos personagens.

Ben Young também acerta em cheio ao não mostrar as cenas de abuso sexual cometidas por Jonh, para não correr o risco de fetichizar o abuso ou mesmo ofuscar os demais abusos psicológicos que as mulheres do filme sofriam. Só por isso ele já merece elogios.

Outro acerto está na trilha sonora de Dan Luscombe, que também está iniciando sua a carreira como compositor de trilhas. A trilha trabalha muito bem o silêncio para criar tensão e sons sintéticos e estridentes para eleva-la. E quando a trilha utiliza-se de músicas incidentais, o resultando é ainda melhor, pois o filme fala muito por meio da música.

Pegue como exemplo a cena onde toca a música ATMOSPHERE do Joy Division, que tem a letra – “Caminhe em silêncio, não vá embora, em silêncio. Veja o perigo, sempre em perigo. Conversa infinita, reconstrução da vida. Não vá embora”. Essa letra retrata bem a condição de Vicki ao ser sequestrada e amordaçada por Jonh, ou mesmo a situação de Evelyn que é silenciada por um relacionamento abusivo, ou até Maggie que precisou quebrar esse silêncio ao sair do abuso psicológico do marido que pensa que seu dinheiro poderá comprar tudo, inclusive sua ex-mulher.

Talvez por falta de experiência do diretor, há alguns excessos no uso slow-motion (um muito evidente que quase estraga o filme todo) mas diante de tantas qualidades na obra, escolhi subtrai-los.

HOUNDS OF LOVE além de ser um ótimo filme de suspense, consegue abordar tema relevantes om maestria e respeito. Um filme necessário para repensar a forma como encaramos relacionamentos abusivos.


Hound of love _ artecines
FICHA TÉCNICA
 
Direção: Ben Young
Roteiro: Ben Young
Fotografia: Michael McDermott
Trilha Sonora: Dan Luscombe
Ano: 2016
País: Austrália
Gênero: Suspense
Classificação: 18 anos
Duração: 108 min. / cor

Título Original: Hounds Of Love

Elenco: Emma Booth, Ashleigh Cummings, Stephen Curry

 

 

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