“Corpo e Alma”: O Lirismo Bizarro das Nossas Relações

Bizarrices podem vir “a compor ou a decompor” obras cinematográficas – ao bel prazer dos criadores desta arte eclética e inquieta – sem que sua flexível definição seja “corrompida” ou sua abrangência “inibida”; porém, o que seriam as tais bizarrices, mencionadas frequentemente por críticos em suas tentativas ora abalizadas ora elitizadas de entendimento de um filme?

Fugindo do que se convencionou como sendo os comportamentos-padrão dos seres humanos, elas, em geral, exacerbam traços incomuns de personalidades várias, principalmente aqueles das fricções mui ininteligíveis ou quase insuperáveis entre pessoas de naturezas díspares ou bagagens conflitantes; elas parecem lubrificar os encaixes enferrujados ou rangentes de relacionamentos improváveis, quando o inevitável choque de peculiaridades individuadas pode vir a se tornar um “obstáculo tangível” para que alguma forma de entendimento se faça perceptível.

Ildikó Enyedi, diretora húngara de 62 anos de idade e de renome consolidado por indiscutíveis premiações em festivais de peso, dá a entender que Corpo e Alma (“A Teströl és Lélekrol – Hungria/2017) não é película para paladares “mainstream” ou para aqueles de estômagos sensíveis: optando por uma estética, de cara, incômoda, pois a maior parte de sua ação é ambientada em um matadouro, Ildikó, também a roteirista, não quer fazer concessões ao fácil ou ao compreensível, ou seja, não aparenta querer ceder aos recursos narrativos pisados e repisados de “n” cinematografias espalhadas pelo globo; ela nos “arrebata”, no início, por meio de imagens indigestas, como se estivesse militando por alguma causa anti-abate de gado de corte; daí, haverá o desenvolvimento de uma bisonha “love story” neste contexto de certeiros cutelos tecnológicos e de quebra cirúrgica de ossos.

A “agenda” de Ildikó inclui conduzir suas plateias já impressionadas por sua “mise-en-scène” a não conseguir tomar partido a favor de nenhum dos dois protagonistas, por friamente destituí-los de características comumente identificáveis; haverá, então, a premência do se deixar levar pelas estranhezas indecodificáveis de Mária (Alexandra Borbély) e pelo isolamento sobrevivente de Endre (Géza Morcsányi), ambos encorajados a se amar, após resistências recíprocas, por similaridades oníricas inacreditáveis: “Ambos têm, noite após noite, o mesmo sonho algo idílico, algo exasperante!”.

Circunscritos a um recinto deprimente e sufocante que incentiva rumores e alimenta confrontações, Mária e Endre, cada qual com sua carga de desconfiança e temor, baseada em supostas experiências passadas traumáticas ou esdrúxulas sobre as quais a plateia não é precisamente informada, acabarão por descobrir o que têm em comum durante um patético acompanhamento psicológico que se segue a um roubo de fortes medicamentos, aplicados ao gado em situações extremas; sendo inquiridos pela profissional como se portadores de algum desvio emocional ou sexual, eles se encantarão com a perfeita sincronia de detalhes com a qual são capazes de descrever o sonho; confirmando alguma atração já existente entre eles, mas que ainda era passível de insucesso, eles irão empreender uma atrapalhada tentativa concreta de relacionamento.

Como sói acontecer quando há abordagens mirabolantes sendo urdidas na telona com o nosso passivo beneplácito de espectadores, mesmo o mais contumaz dos cinéfilos não será capaz de afirmar o que se passou exatamente na cabeça desta “moviemaker” controversa quando ela fez esta opção pelas bizarrices: “Por que será mesmo que ela não quis prover seus protagonistas solitários de alguma normalidade mais deglutível ou de alguma emocionalidade mais corriqueira? Teria sido por desejar enfatizar nossas dificuldades de ajuste a uma acachapante realidade que não nos dá espaço suficiente para que possamos vivenciar na íntegra aquilo que somos?”.                             



Professor de Inglês há mais de 35 anos e, em meus fins de semana, há mais de 15 anos, venho escrevendo resenhas cinematográficas sobre um filme em cartaz na cidade de São Paulo. Como venho de família de cinéfilos inveterados, filmes de todas as tendências, procedências e dimensões fazem parte de meu cotidiano desde criança; entretanto, como não pertenço à área dos que produzem efetivamente obras para a "telona"ou que as analisam periodicamente para os meios de comunicação, sentia a vontade de conviver mais de perto com os amantes da Sétima Arte.


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