BLADE RUNNER 2049 | Crítica

Pelo segundo ano consecutivo, Denis Villeneuve nos brinda com uma obra de ficção científica que homenageia obras clássicas de outrora ao mesmo tempo que moderniza sua linguagem e atualiza seu discurso. Isso faz do diretor um dos nomes mais cotados para resgatar outras obras ficcionais como por exemplo “Duna”, ficção científica de Frank Herbert publicado em 1965, que é considerada por muitos como a obra máxima da ficção científica. Essa história já teve uma adaptação mal sucedida nas mãos do mestre (mas ainda humano) David Lynch e quase virou realidade nas mãos de Alejandro Jodorowsky no início dos anos 70. Mas enquanto não chega esse dia dos sonhos, falemos da nova obra do diretor canadense que trouxe Blade Runner de volta às telas.

“Blade Runner 2049” se passa 30 anos após eventos ocorridos no filme de 1982 dirigindo por Ridley Scott. Aqui temos K, um policial replicante (androide) que é contratado pelas indústrias Wallace para caçar e destruir replicantes de um modelo antigo para que uma nova frota de novos replicantes surjam para atender aos interesses da empresa.

Sim, as semelhanças na sinopse entre o filme clássico e esse novo “Blade Runner” é clara, mas engana-se quem acha que verá uma repetição do filme dos anos 80, ainda que haja elementos dele no filme.

Se no filme clássico temos um blade runner (Ford) mais determinado em cumprir sua missão, aqui, esse personagem (Rosling) está mais determinado em encontrar sua real origem e o sentido de sua existência. Esse discurso se aproxima bastante de “Ghost in The Shell” por exemplo. No filme clássico, essa função existencial estava à cargo dos replicantes cassados.

Em “Blade Runner 2049” K, aparece em diversos momentos sendo maltratado, humilhado e oprimido pelos humanos que chamam os replicantes pejorativamente de “pele-falsa”. Apesar de terem anatomia humana, sentir dores humanas e possuírem consciência tal qual um humano, o que vemos é uma desumanização desses seres, que precisam ser lembrados de que não são pessoas reais para que não haja envolvimento emocional por partes do humanos. Essa tática é muito utilizada em guerras, onde desumaniza-se o inimigo para que não haja compaixão para com eles.

Todavia, Villeneuve não quer apenas mostrar isso de forma verbal. Ele utiliza da imagética e seus elementos para mostrar no que aquele mundo se tornou, como por exemplo, o recorrente uso de chuva que simbolicamente é opressiva pois cerceia a liberdade do livro trânsito, além de trazer ainda mais escuridão ao cenário, que apesar da cores dos letreiros e telas luminosas, essas luzes em momento algum ilumina as pessoas que sempre surgem de cantos escuros.

O contraste de luz e sombra está presente no filme todo.

É preciso aqui, destacar o trabalho do diretor de fotografia, Roger Deakin que já é costumeiro nas obras de Villeneuve. Aqui há uma clara referência ao neo-noir presente no filme clássico mas nem nunca soar cópia. O contraste entre o cinza da nevoas que criam um clima de desolação com a cores vividas dos telões e dos hologramas presentes na cidade, cria um espetáculo visual embasbacante. A forte presença de laranja quente e do azul frio (não, não é propaganda ITAÚ) evidencia a dualidade de diversos personagens que a todo o momento se mostram mais humanos que os próprios humanos.

Observe a relação de K com sua assistente virtual Joi (Joi é o nome do produto). Por mais que saibamos se tratar de um androide e uma inteligencia artificial, a relação entre ambos possui muitos mais nuances que relacionamentos, românticos ou não, entre humanos. Há pelo menos duas cenas de interação entre ambos que ficarão marcados por muito tempo como uma das mais belas cenas de interação romântica do cinema. Mas como “Blade Runner 2049” explora muito as dualidades, as cenas não são apenas belas, são também tristes, algo que lembra muito o filme “Ela” de 2013 dirigido por Spike Jonze, tanto no enredo quanto no visual.

Cenas de interação romântica na chuva é bem clichê, mas aqui a cena ganha outros elementos.

Confiando plenamente no poder da imagem, Villeneuve explora ao máximo cada plano. O diretor a todo momento utiliza-se de planos abertos para explorar toda a mis-en-scene. O trabalho da direção de arte alcança a perfeição nos detalhes, dando textura, realismo e muita funcionalidade à toda aquela modernidade poluída. São detalhes que já eram perfeitamente explorados no filme de 82 e aqui conseguiram deixar o perfeito ainda melhor. Não há uma cena sequer onde o entorno não é explorado. Faça o teste: vá ao IMDb e busque por imagens do filme. Até a data da publicação desse artigo, são mais de 400 imagens, uma mais linda que outra.

Ademais, assim como nos demais filmes de Denis Villeneuve, a trilha sonora tem destaque, aqui não é diferente, mas desta vez em uma parceira até então inédita – Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch. Esse ano já havia torcido o nariz com a substituição da parceria Aronofsky / Mansell e queimado a língua. Agora isso se repete, pois ao saber que Johann Johansson não estaria em “Blade Runner 2049” torci o nariz, mas foi preciso reconhecer que o trabalho de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch é simplesmente brilhante. Zimmer se retrata da barulheira sem sentido de “Interestelar” de 2014 e compõe uma trilha que respeita momentos de silêncio, e quando surge, consegue elevar a tensão com sons sintéticos que se mesclam com perfeição aos sons de maquinários e dispositivos eletrônicos. É uma trilha que não só eleva a cena mas também mergulha o espectador na história.

Saindo um pouco da primorosa parte técnica do filme, chegamos nas atuações que apesar de não apresentar nada fora da curva, são eficazes. A curiosidade fica por conta de Jared Leto, famoso por mergulhar fundo nos seus personagens (oriundo da técnica do método), que durante as filmagens realmente se colocava na situação de cego o tempo topo, precisando inclusivo de auxilio para andar pelos sets de filmagens. O resultado? Nada demais – apenas uma atuação regular sem muito destaque.

Já Ryan Gosling, se mostra muito confortável em um papel que exige pouco alcance dramático. Sua atuação é propositalmente monotônica, o que o deixa bem apagado diante do carisma de Harisson Ford e seu famoso Rick Deckard. Sua presença em tela demonstra um total controle do ator, que já não tem o mesmo vigor dos anos 80 mas ainda consegue seu destaque.

O único elemento que realmente fica abaixo da excelência é o roteiro. Se em “A Chegada” alguns furos de roteiro são justificáveis pela suspensão da descrença, aqui essa justificativa não funciona. Há algumas conveniências que se repetem no roteiro o que de forma alguma transforma a obra é algo menor, mas ainda sim, destoa da perfeição técnica do filme.

“Blade Runner 2049” não precisa ser o melhor filme de ficção científica dos últimos anos. Ele só precisa ser um ótimo filme e isso ele é. Um espetáculo visual, que explora todo seu potencial técnico para reviver dignamente uma obra que já havia atingido seu estado de perfeição. Assim acontecera com “Mad Max – Estrada da Fúria” de 2015, “Blade Runner 2049” é a prova de que o problema de Hollywood não são os reboots e continuações de franquias – o problema é como fazer isso. Ou seja, na dúvida, chame Denis Villeneuve.


Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Hampton Fancher, Michael Green
Fotografia: Roger Deakins
Trilha Sonora: Hans Zimmer, Benjamin Wallfisch
Ano: 2017
País: Estados Unidos
Gênero:  Ação / Ficção Científica
Classificação: 14 anos
Duração: 163 min. / cor
Título Original: Blade Runner 2049
Elenco: Harrison Ford, Ryan Gosling, Ana de Armas, Dave Bautista, Robin Wright.

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