BINGO – Um Réquiem para a Obsessão do Sucesso

Até onde você iria para realizar um sonho? Relaxa, isso não é uma apresentação de esquema de pirâmide nem é um texto de auto-ajuda. Trata-se de um pergunta de reflexão em cima do nosso próprio comportamento que pode migrar de uma persistente buscar da realização de um objetivo para uma obsessão. Segundo o psicólogo Victor Dalla Nora, quando se passa a viver somente para e pelo objetivo, o indivíduo já pode se considerar obsessivo. Ainda segundo o psicólogo, “o obsessivo não sente prazer em sua obsessão, ao contrário, ele sofre. […] Na obsessão o indivíduo depara-se com a incompletude e muitas vezes com a culpa. Para o obsessivo não há desfecho, há sempre a sensação da falta, de que algo poderia ser melhor feito, realizado mais vezes, etc.”

A verdade é que a obsessão é um processo comportamental contínuo de persistência e busca de algo não alcançado. Muitas vezes estamos vivendo uma obsessão sem nem mesmo nos apercebermos disso. A etimologia das palavras obsessão e obcecado, pode ajudar-nos no entendimento de seus efeitos – obcecado tem origem no latim obcaecare, que indicava um estado de cegueira. Isto porque o indivíduo obcecado não consegue avaliar os seus comportamentos e a própria realidade. Por outro lado, obsessão vem do latim obsedere, que indicava o ato de cercar ou rodear alguma coisa ou alguém. Ou seja, a obsessão surge de um cerco, de um desejo exacerbado de algo ou alguém levando a se tornar obcecado, ou cego e incapaz de avaliar seu comportamento.

Pegue como o exemplo o filme BINGO – O REI DAS MANHÃS (2017) que estreou recentemente nos cinemas. O filme foi inspirado na história real de Arlindo Barreto, ator que viveu o palhaço Bozo entre 1982 e 1987. Para essa análise, precisarei revelar alguns spoilers do filme. Ainda que esses detalhes façam parte da vida do ator que inspirou o filme, é sempre bom avisar.

Todo foco do longa está na obsessão do ator, que aqui se chama Augusto (Vladimir Brichta), em alcançar o sucesso. Augusto é obcecado pelo palhaço Bingo (entenda-se como Bozo) e isso o leva à ruína profissional e consequentemente pessoal. O roteiro de Luiz Bolognesi sintetiza o conflito – vida pessoal x vida profissional, no personagem de seu filho, Gabriel (Cauã Martins) que acaba sendo a primeira vítima da obsessão do pai. O filme abre com ambos brincando de fazer sombras na parede com um holofote, criando já uma conexão entre ambos. Guarde esse informação, pois retornaremos a ela posteriormente.

Curiosamente, após assistir ao filme, eu revi um filme do qual gosto bastante e que tem uma temática bem parecida e que também inicia criando uma conexão, mas aqui é entre mãe e filho. Estou falando de RÉQUIEM PARA UM SONHO (2000) dirigido por Darren Aronofsky.

Em RÉQUIEM PARA UM SONHO, temos uma história sobre vícios e obsessão. Sara é obcecada em aparecer em um programa de TV. Já seu filho Harry é obcecado em vender drogas para (1) sustentar seu vício (2) ficar rico e dar uma condição de vida melhor para sua mãe. Em ambos os filmes, a obsessão leva ao vício que por sua vez, leva à derrocada.

Em entrevista dada para o making-of do filme, Darren Aronofsky revela que seu objetivo não era fazer um filme sobre vício de drogas e sim sobre vícios em geral. No filme temos vício em TV, em medicamentos, em drogas e em sexo. Segundo o diretor, poderiam ser vícios em café, chocolate, álcool, adrenalina dentre outros. Todos esses vícios são geralmente associados à uma tentativa de fuga da realidade apresentada e um alívio da pressão individual sofrida. Um exemplo disso é um vicio recente que tem crescido a cada dia – o vício tecnológico.

De acordo com uma pesquisa feita em 2014 pela empresa de marketing Digital Clarity, um número significante de jovens adultos pode estar sofrendo com o vício em internet. Segundo ele, 16% dos pesquisados apresentaram sintomas do vício, admitindo gastar mais de 15 horas por dia na internet, prejudicando suas interações sociais, familiares e profissionais. Pode até acontecer de nós sermos umas dessas pessoas viciadas em internet, ou mesmo viciadas em outras coisas. Naturalmente não é um diagnóstico fácil de ser evidenciado por conta própria, pois como a própria origem da palavra obsessão diz – são desejos exacerbados que nos tornam pessoas cegas e incapazes de avaliar nossos próprios comportamentos.

RÉQUIEM PARA UM SONHO retrata perfeitamente como uma obsessão se transforma aos poucos em vícios. Tomemos como exemplo a personagem Sara vivida brilhantemente pela diva Ellen Burstyn. Sua obsessão por um programa de TV que era seu refugio de uma realidade pesarosa, a fez desejar exacerbadamente emagrecer para poder participar do programa e para tal passa a tomar anfetaminas que a deixa viciada, agora não só comportamentalmente com o ato ver TV como quimicamente com os efeitos da droga. Uma obsessão que a levou ao vício.

Uma curiosidade acerca do título do filme – REQUIEM FOR A DREAM (Réquiem Para Um Sonho) é que réquiem pode significar o nome dado para o gênero de composições musicais criadas especificamente para as cerimônias fúnebres ou para homenagear os mortos. Agora ouça a trilha original do filme composta por Clint Mansell e repare como essa trilha é funesta, funcionando como um arranjo para a morte de pessoas em busca de seus sonhos – um réquiem para um sonho.

Voltemos agora para o filme BINGO – O REI DAS MANHÃS. Augusto ficou obcecado em fazer do seu personagem Bingo o mais famoso palhaço da TV brasileira. Mas essa obsessão o deixou cego, fazendo com que deixasse de enxergar o quão danoso essa obsessão seria, tanto para ele mesmo quanto para os demais que à sua volta estavam.

E é ai que o personagem de seu filho ganha importância na trama. O garoto representa a vida que Augusto abandona em favor do seu alter-ego Bingo. Sua obsessão pela personagem e sua fama o leva ao desmoronamento social e familiar. Além disso, a pressão nele exercida para jamais revelar quem realmente é a pessoa por trás da “máscara” de palhaço o tortura. Augusto busca a fama acima de tudo e isso o torna cego para tudo e todos ao seu redor.

A própria cinematografia de Lula Carvalho destaca essa obsessão de Augusto pelos holofotes, pelo destaque, pela fama. A primeira cena, que comentei no início do texto, pai e filho brincam com um pequeno holofote criando sombras para aquelas brincadeiras de reproduzir na parede as sombras de animais com as mãos. Conforme Augusto vai se transformando em Bingo, esse holofote passa a acompanhar o personagem que parece estar o tempo todo com luzes sobre sua cabeça. Essa luz é tão intensa sobre ele, que por vezes contorna sua silhueta criando lindos planos, porém mais do que lindos eles são funcionais.

O filme usa muito bem a luz para destacar a obsessão de Bingo pelo sucesso

BINGO – O REI DAS MANHÃS é a retração perturbada da obsessão de uma pessoa pela fama, pelo sucesso e pelo reconhecimento. É a busca aflitiva de uma existência ocultada por uma “máscara” de palhaço. Vê-lo junto com RÉQUIEM PARA UM SONHO cria um quadro sobre vícios e obsessões e como isso tem impacto em nossas relações pessoais, sociais e familiares. Um quadro que deve refletir a forma como lidamos com nossos objetivos e nossos sonhos.

 

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