As Tecnologias de Black Mirror: O Espelho dos Nossos Dias

Convencionou-se dizer que Black Mirror é uma distopia que critica o impacto da tecnologia em nossa sociedade, mas a verdade é que ela se trata de uma realidade potencializada da nossa atualidade. Não se trata de como a tecnologia nos afeta e sim, de como nós reagimos à ela. Black Mirror nos propõe uma reflexão acerca do que vivenciamos hoje, tanto que algumas das tecnologias da série já são comuns em nossos dias, sendo utilizadas diariamente sem que muitas vezes tomemos ciência disso.

Vamos listar agora algumas dessas tecnologias que assombraram personagens na série e que existem na nossa realidade, podendo inclusive ser acessadas por vocês assim que terminar esse artigo.

Comecemos pelo episódio 1 da primeira temporada (S01E01), The National Anthem ou Hino Nacional. No episódio, o primeiro-ministro Michael Callow enfrenta um dilema chocante quando a Princesa Susannah, um membro muito amado da Família Real, é sequestrada. O dilema consiste em praticar um ato repulsivo ao vivo, diante de milhões de pessoas em troca da liberdade da Princesa. O episódio mostra a ação de criminosos sendo transmitido ao vivo para milhões pessoas que vão do horror ao êxtase com as imagens exibidas. Porém, por mais absurdo que isso pareça, não é exclusivo da ficção.

Veja esse caso: Em 16 de abril de 2017. Robert Godwin, de 74 anos, foi baleado e morto enquanto caminhava em uma calçada no bairro de Glenville, Cleveland, nos Estados Unidos. O criminoso, identificado como Steve Stephens, de 37 anos, publicou um vídeo feito de um celular do tiroteio em sua conta no Facebook. No vídeo do assassinato, transmitido ao vivo, o suspeito se aproxima da vítima e pede que diga o nome da ex-namorada antes de atirar. Assim que a vítima diz: “Joy Lane”, Stephen diz: “Sim, ela é a razão pelo que está prestes a acontecer com você”. Em outro vídeo também publicado no Facebook feito pouco antes do tiroteio, Stephen também culpa a mãe. Ele diz ter contado à sua mãe que tinha “intenções suicidas” e planejava “matar algumas pessoas”.

Com a repercussão do caso, o Facebook anunciou medidas para combater que videos assim sejam postados na rede social. Uma das medidas foi a contratação de 3 mil novos moderadores digitas que somaram aos outros 4.5 mil já contratados para monitorar posts suspeitos. É ou não é muito black mirror?

Agora vamos para o episódio 3 ainda na 1ª temporada (S01E03) The Entire History of You ou Toda a sua História. Em um futuro próximo, todos têm acesso a um implante de memória que registra tudo o que eles fazem, veem e ouvem.  Nunca mais um rosto será esquecido novamente – mas será que isso necessariamente é uma coisa boa? Como já é de praxe em Black Mirror, o uso descomedido da tecnologia tem resultados desastrosos. E por mais maluco que seja, tal tecnologia não está longe de existir nos moldes apresentados pela série. Pelo menos é o que a Sony promete com uma lente de contato registrada em 2014 sob a patente 20160097940 A1.  “As lentes de contato têm a função de capturar imagens e são capazes de controlar o momento da captura de acordo com um piscar de olhos do usuário”. Esta é a descrição técnica do produto. Achou muito Black Mirror?

Mas se você quiser testar algo similar, já existe disponível mercado à uma bagatela de 250 dólares, o Google Chip, uma câmera de cinco centímetros, 60 gramas que utilizando-se de um algoritmo de inteligência artificial, decidirá por você o que vale a pena ser registrado. A câmera é ativada automaticamente ao observar uma cena que parece digna de registro – como os rostos de seus familiares e amigos sorrindo ou uma bela paisagem. Além de produzir imagens estáticas, também faz GIFs de seis segundos que são enviados diretamente para o celular. Caso queira adquirir um, deixarei o link disponível para acessar.

Pulamos então para a segunda temporada no primeiro episódio (S02E01) chamado Be Right Back ou Volto Já. Depois de aprender sobre um novo serviço que permite que as pessoas permaneçam em contato com entes queridos que já morreram, Martha, uma jovem solitária e triste, se reconecta com seu falecido marido. Esse contato é feito através que um sistema que capta todas as interações da pessoa nas redes sociais que cria uma espécie de chatbot que simula com máxima fidelidade a personalidade do falecido.

Ficou curioso para saber como funcionaria um sistema assim? Conheça o aplicativo Replika, disponível para Android o IOS. Replika é um app que utiliza técnicas de inteligência artificial para aprender tudo sobre o usuário, inclusive seu jeito de escrever, criando uma espécie de clone virtual. A proposta é ter uma réplica de si no smartphone, capaz de conversar, entreter e, principalmente, fazer a pessoa aprender mais sobre si mesma. Caso queira testá-lo, o link para o download gratuito do app está disponível clicando aqui.

Falando da 3ª temporada, o episódio 1 chamado (S03E01) Nosedive ou Queda Livre é um dos queridinhos do público de Black Mirror. No episódio, uma mulher precisa aumentar a sua pontuação de mídia social para garantir um desconto que lhe permitirá acesso à um condomínio de luxo.  Quando ela é convidada para um casamento ostentoso, vê nesse evento a chance de atingir a tão almejada pontuação, entretanto a viagem não sai como planejado. O episódio fala da artificialidade das redes sociais, em especial o Instagram onde  a realidade é distorcida por camadas de filtros, tanto as oriundas do aplicativo, quanto as que criamos para mostrar um lado nosso que talvez nem exista na vida real. E qual o objetivo disso tudo? Ser bem avaliado ou avaliada por meio de likes.

Hoje, basta você solicitar um serviço de Uber por exemplo, que estará diante de um sistema de aprovação ou desaprovação baseada em uma avaliação muito similar ao de Black Mirror. E assim como no episódio, uma baixa avaliação pode resultar em graves perdas materiais, como por exemplo, para o motorista de uber, o resultado pode ser a perda da licença para trabalhar. Já o usuário mal avaliado por ter a corrida não aceita. Mas isso ainda está pouco Black Mirror. Então vamos melhorar, ou piorar um pouco.

Anunciado em 2014, o Social Credit Score ou Pontuação de Crédito Social, começou a ser testado no mesmo ano na China. Com ele, cada um dos 1,3 bilhões de chineses serão constantemente avaliados por suas ações e monitorados por meio de dados recolhidos das mais diversas fontes – onde compra, o que compra, onde vai, quantos amigos tem, se tem filhos, se paga as contas em dia.

A pontuação final será pública e usada para medir seu grau de confiabilidade. Com base nessa nota será determinado se você é bom para uma vaga de trabalho, se serve para determinada escola, se pode pegar ou não um empréstimo no banco e assim por diante. Até mesmo comportamentos rotineiros serão alvos de avaliação. Em entrevista à revista Wired, Li Wingyun, diretor de tecnologia de uma das empresas associadas do governo no projeto, a Sesame Credit, revela como o sistema funciona. “Alguém que joga videogame dez horas por dia, por exemplo, seria considerado alguém preguiçoso. Alguém que compra fraldas, provavelmente tem filhos, e é considerado alguém mais responsável”.

Agora pare e pense: e se a pessoa que passa o dia jogando videogame, no lugar de ser preguiçoso, trabalha testando novos jogos? E a pessoa que decide não ter filho, ela não pode ser considerada responsável? E os casais do mesmo sexo, como seriam avaliados? Essas problemáticas são perfeitamente exploradas nesse episódio e possivelmente sejam as mais presentes no nosso cotidiano. Afinal, quem nunca observou a pontuação do uber que solicitou?

Mas dessas tecnologias, a que mais assusta é a presente no episódio 5 da 4ª temporada (S04E05). O título do episódio é Metalhead e se passa em um mundo pós-apocalíptico onde um grupo formado por Bella, Clarke e Antony precisa resgatar um suprimento escondido em um armazém sob a guarda de um cão-robô assassino que passa a persegui-los. O episódio, totalmente focado no horror, cria uma atmosfera ameaçadora realçada pela bela fotografia em preto e branco. Esse horror é a síntese do ameaçador robô-cão que caça os personagens de forma incansável. Sem qualquer background do que se trata esse robô, o espectador teme o pior pois sabe que aquela máquina é quase indestrutível. Todavia, o que torna essa história tão assustadora é saber que essa ameaça robotizada já existe, e foi criada pela empresa Boston Dynamics. Em uma entrevista dada ao Entertainment Weekly, o criador de Black Mirror, Charlie Brooker, confessou que a Boston Dynamics inspirou um de seus antagonistas mais cruéis de toda a série.

Em Metalhead, o robô-cão tem função e recursos militares que provavelmente foram as causas desse futuro apocalíptico. Entretanto, segundo a Google, que comprou a Boston Dynamics, toda tecnologia da empresa será empregada nas áreas de construção civil, industrias e até resgates à vítimas de terremotos e outras catástrofes onde  pessoas possam estar sob escombros. Porém, não é difícil imaginarmos que em Metalhead o discurso inicial tenha sido exatamente esse, mas como quase todas as tecnologia que já foram criadas nesse mundo, a militarização dela é questão de tempo.

A conclusão que chegamos é de que Black Mirror não é uma série sobre as tecnologias do futuro. É uma série, sobre nós mesmos, hoje. É sobre como lidamos com tais tecnologias. É a nossa realidade exposta, nua e crua aos nossos olhos. Isso é muito Black Mirror!

 

About Fernando Machado

Apaixonado por música tanto quanto por cinema, comecei a minha cinefilia com minha mãe indo ao cinema para ver os filmes dos Trapalhões e do Jean-Claude Van Damme. A paixão veio forte quando assisti a Jurassic Park, com toda aquela esplendor visual mesclado com a trilha de Johh Williams. Hoje com a ajuda do Spotify detenho uma playlist com todas as trilhas sonoras que me marcaram e me fazem amar o cinema cada dia mais. Minha trilha preferida? Do filme Uma Lição de Amor de 2011.

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