AO CAIR DA NOITE (It Comes At Night, 2016) | Crítica

AO CAIR DA NOITE reforça o que sempre digo sobre a experiência de se assistir a um filme. Quem acompanha meus textos sabe que eu acredito que o cinema é uma arte sensorial, do qual um estímulo causa uma reação (física ou emocional) diante daquilo que vemos e ouvimos. Em vista disso, grandes autores (diretores e/ou roteiristas) criam suas obras pensando nessa experiência sensorial. Por exemplo, algumas comédias são dirigidas pensando em espaços de tempo após uma gag para que o público externe sua contenção por meio gargalhadas, e assim não perca a próxima cena.

Em cima desse contexto, AO CAIR DA NOITE foi pensado pelo diretor e roteirista Trey Edward Shults para ser visto de uma única maneira, afim de que a experiência sensorial proposta pelo filme seja completa: em completo silêncio e com o mínimo de distrações possíveis. O filme depende desse ambiente para que haja absorção por parte do público do clima taciturno que ele propõe.

Na história, Paul (Joel Edgerton) é um homem comum que tenta proteger sua família de um vírus mortal que está infectando e matando as pessoas da região. Genérico não? Mas o que importa aqui não é a história contada e sim como ela é contada.

AO CAIR DA NOITE opta por não contar a história de forma verbalizada, mas sim de forma imagética, por meio de seu design de produção, de sua cinematografia e especialmente por meio da trilha sonora que juntos compõem todo ambiente que o filme exige. Por conta disso a imersão é tão necessária. Um espectador mais distraído poderá não “enxergar” o que o filme quer contar.

Um exemplo muito claro disso acontece nos primeiros minutos de filme, quando nos é apresentado os personagens. Não há nenhum diálogo ou qualquer informação verbalizada que mostre como é a dinâmica daquela família, mas em uma cena, aparentemente sem importância, uma câmera subjetiva (aquela que nos coloca sob o ponto de vista do personagem) atravessa um corredor escuro e a iluminação oriunda da lamparina do personagem, nos permite enxergar nas paredes do corredor, diversas fotos que mostram a família unida, juntas em festas, jantares, acompanhada de outras pessoas (possivelmente já vitimadas pelo vírus) e também do cachorro que já faz parte da família. Essa informação legitima a grande preocupação de Paul em proteger a família que já sofrera perdas enormes.

Com uma cinematografia escura composta de iluminação pontual, o filme esconde informações em detalhes mínimos.

Outro exemplo é uma cena onde Paul olha aflitivamente pela janela temendo que sua casa seja invadida, e atrás dele observamos uma grande estante de despensas já com vários espaços vazios, o que mostra que aquela quarentena já dura muito tempo e também mostra que seus suprimentos estão se esgotando justificando o nível de estresse em que aqueles personagens se encontram.

Essa não verbalização pode tornar o filme confuso e em sentido para alguns, além de entediante, graças ao ritmo cadenciado do filme. Mas essa cadência é perfeita para que absorvamos as informações implícitas do filme, como por exemplo a trilha sonora, que consegue ser presente e marcante mas nunca invasiva e expositiva.

Logo na primeira cena do filme, a trilha trabalha perfeitamente a sensação de dor e angústia e na sequência o vazio e o alívio diante do que é apresentado. E depois disso ela conduz o espectador quase que pelas mãos através do medo, da incerteza do que está acontecendo, da angustia de ter sido contaminado e da esperança de que todos sejam salvos.

Outro acerto do filme é na forma como ele desenvolve os personagens para que nos importemos com eles. Os poucos diálogos do filme, servem exclusivamente para criar conexão entre os personagens em si, e entre nós e os próprios personagens. Como já foi explicado nesse vídeo (sem spoilers) sobre o filme RAW, a conexão é fundamental para que nos importemos com o que estava acontecendo com cada personagem. E nesse sentido, a leveza do segundo ato do filme serve para criar essa conexão, transformando o terceiro ato em uma angústia pura.

Os poucos diálogos no filme servem para criar conexão entre os personagens e o público, para que haja interesse neles.

Talvez o único pecado do filme é ter apenas 91 minutos de duração, não dando tempo e espaço para desenvolver a personagem Sarah (Carmen Ejogo) que acaba sendo mais uma personagem “esposa do protagonista”. Mas isso é um detalhe diante de tanta qualidade que o filme apresenta.

AO CAIR DA NOITE é um terror sensorial que não busca dar susto em seu público e sim despertar sensações por meio de sua ambientação e trazer o público para dentro dele. Com certeza figurará nas listas de melhores filmes do ano de muita gente, inclusive desse que vos escreve.

P.S. – Fujam de sessões cheias de adolescentes em busca de sustos baratos. Isso poderá acabar com a sua experiência, como quase acabou com a minha.

FICHA TÉCNICA

Direção: Trey Edward Shults
Roteiro: Trey Edward Shults
Fotografia: Drew Daniels
Trilha Sonora: Brian McOmber
Ano: 2017
País: Estados Unidos
Gênero: Terror / Mistério
Classificação: 16 anos
Duração: 91 min. / cor
Título Original: It Comes At Night

Elenco: Joel Edgerton, Christopher Abbott, Carmen Ejogo.


3 thoughts on “AO CAIR DA NOITE (It Comes At Night, 2016) | Crítica

  1. Parabéns ao diretor. Conseguiu produzir o pior filme dos últimos tempos. No meu caso, o pior que já vi na vida. Minha experiência foi até engraçada, pois não saí da sala com a sensação de que somente eu achei isso. Quando os créditos começaram a subir a sala inteira deu risada e todos ao meu redor estavam comentando o quão inacreditável o filme era de tão ruim. Não. Quase não tinham adolescentes, eram adultos. Pqp…a maior perda de tempo dos últimos tempos. Filme ruim, atores ruins, produção ruim…

    1. Um dos grandes problemas do filme é ser vendido como filme assustador. Nisso vc tem toda a razão, o filme é horrível se pensar nele por esse viés. Mas o filme não para isso. É filme contemplativo, e natural muitas pessoas detestarem esse tipo de filme. Não me surpreende a reação do público que esperava algo assustador.
      Ah e meu problema com adolescentes não foi o pós filme, mas a bagunça durante o filme. Após eles podem fazer o que quiser, mas durante, poxa, se eles estavam detestando eu não. Estava curtindo cada cena.

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